quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Cachambi

"Apenas fiquei conhecida por causa de meus dois filhos, que nunca se esqueceram de onde vieram nem da mãe que têm", Dona Canô, mãe de Caetano e Betânia








Estou mudando do Rio de Janeiro. Por razões profissionais, a partir do próximo mês, minha casa estará em Blumenau, SC.
Eu cresci ouvindo falar do Cachambi, um sub-bairro do Meier no Rio, de onde vem o lado português da família da minha mãe. Minha avó materna, que morou conosco até a minha adolescência, havia crescido e morado nesse bairro do subúrbio até casar com meu avô do meu lado Daemon.








Eu nunca havia ido e, por força dos meus trabalhos voluntários junto às pastorais de bairro, acabei tendo a oportunidade de conhecer a região, da qual gostei muito por sinal. Imagino que nos tempos de solteira de minha falecida avó fosse ainda melhor, menos favelizado e perigoso, mas mesmo nos dias de hoje, quase toda a região ainda mantêm o clima de cidade pequena com suas casas antigas e crianças brincando despreocupadas em ruas muitas vezes sem saída.


Muitas vilas de casas, todas cercadas, seguras, coloridas, familiares e amplas com seus espaços livres. A primeira na Rua Baldraco e a segunda na Ferreira Andrade.






Construções antigas e comércio de bairro, um bar no entroncamento entre duas ruas. Em frente a Rua Cachambi 100. Esse trabalho de fachada é manual e não se faz mais em lugar nenhum. Mas ninguém valoriza e as nossas construções, que deveriam estar sendo tombadas e restauradas, acabam abandonadas e demolidas.




O tradicional colégio Santa Mônica, todo reformado num sobrado do século XIX, Rua Hermínia






Um Ecoponto em frente à Igreja de Nossa Senhora Aparecida, coleta de óleo para aliviar nossos rios subterrâneos que desaguam no mar.







A escola de samba local e cervejas artesanais que eu ainda não conhecia no espaço de uma locadora que promove encontros de música e cineclube, o Espaço Cultural Papa Café, Rua Rocha Pita, "Fora Pezão, a cerveja que o Rio pede" e "Fora Temer, harmoniza com Democracia".  E, até agora, é também o único lugar onde se vende a Conceição Evaristo (em homenagem à escritora negra, nascida na favela, um dos nove filhos de uma empregada doméstica, que tornou-se professora e doutora em letras) da Cervejaria Feminista. Boa!
















Coisas que não se veem todos os dias, lojas que vendem apenas pipas ou fantasias de caipira. Ruas Oito de Setembro e Aristides Caire.









Come-se divinamente no Cachambi, o tradicional restaurante Evandro´s, há mais de 30 anos na Rua Cachambi 315 , serve comida de inspiração portuguesa por menos da metade do preço dos bairros nobres. Essa frigideirinha com uma paella impecável, considerada "prato executivo" por eles, saiu a módicos R$35,00.






O que eu não fotografei e também adorei, a bucólica Pracinha Avaí na Rua Coração de Maria. 
Centro de Treinamento do Team Nogueira de Artes Marciais, presente até em Dubai mas também na Rua Garcia Redondo, e o Instituto Nam Ho Lee de Artes Marciais, Rua Honório. Não estivesse de mudança e teria me matriculado em algum deles. 
A escolinha do Flamengo, também na Rua Honório. 
E claro, um dos melhores bares do Rio de Janeiro, eleito o melhor bar da Zona Norte e muitas vezes finalista do Comida di Buteco, o insubstituível Cachambeer, Rua Cachambi, com seu cardápio muito sincero. Os nomes dos pratos: "Sem creminho" (pastel de camarão e pastel de palmito), "Infarto completo", "Explode cabritão" e "Porquinho embriagado".



A casa dos seus sonhos pode estar no Cachambi pelo valor de um sala e dois quartos nos bairros mais nobres. Todas de meio de terreno com vaga de garagem e árvore no quintal.




A minha casa favorita, praticamente uma floresta no quintal, Um rio represado por muro de pedras corta o terreno. Rua Alvarez Cabral.









Porque um lugar tão bacana, faveliza e perde o clima de interior. Onde vai subir esse residencial para centenas de pessoas se espremerem com direito à "varanda gourmet" e "área de lazer com espaço fitness", existiam dois casarões com árvores no quintal. 





Manter um gabarito, adequar as linhas de trem e metrô, além de levar delegacias aos sub-bairros, faria mais pela urbanização do Rio do que megaeventos, empreendimentos modernosos e UPP´s.
Em todas as minhas muitas idas ao Cachambi, eu não vi nenhum policial ou funcionário da Comlurb nas ruas do bairro.










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