sexta-feira, 24 de abril de 2015

"Verde", além de sexy, é country e impermeável








Há 6 anos quando comecei a escrever o blog, postei sobre minhas botas de couro vegetal em cano curto, para usar de calça, estão inteiras até hoje e suas fotos aparecem na postagem "Verde" é sexy. Três anos se passaram e eu encontrei as botas que queria em cano alto, para usar de saia e legging. Claro que estão novinhas e prontas para muitos anos de uso ainda, suas fotos aparecem na atualização da postagem linkada.
Curiosamente mais 3 anos se passaram e cá estou eu de novo em 2015 com novas botas em material sintético, prontas para o tempo mais fresco que vem por aí. 
Dessa vez, as fotos não foram feitas na escadaria de meu apartamento antigo no Flamengo como nas duas postagens anteriores, mas na área comum do apartamento novo do Maracanã e as botas foram compradas pela internet, não precisei bater perna para encontrar.

Eu gosto muito de bota, uso direto porque acho prático e elegante. Quando comecei a trabalhar embarcada em plataformas, vestia o tradicional macacão laranja ao acordar, calçava aquelas botas pesadas com biqueira de aço embutida e devido registro no Ministério do Trabalho e ficava desse jeito até a hora de jantar, quando tomava meu banho e podia então vestir um moleton. As outras mulheres à bordo, encontravam mil maneiras de driblar a situação, levando outras roupas, aproveitando horários de folga para se livrar do macacão, etc. Nunca me incomodou em nada, sempre achei muito prático e, quando parei de embarcar, senti muita falta de acordar e poder entrar num macacão e calçar umas botas sem ter que pensar no que vestir. Hoje, eu tenho vários macacões, como por sinal está na moda, e sempre que posso, calço botas. Meus macacões não são mais laranja e largos, é claro. E olhando umas fotos antigas de Lauren Hutton, que fez tantos safáris na África, que comprou os macacões dos guardas locais, vejo como a moda é mais influenciada pelos trabalhadores do que imaginamos




Galochas voltaram à moda há alguns anos totalmente repaginadas e caríssimas em versões assinadas por grandes estilistas. Como uma das minhas formações é justamente como Técnica em Segurança no Trabalho, todas as vezes em que procurava uma galocha para seu fim (proteger meus pés da chuva), ficava pensando em como um funcionário de açougue, plataforma, rede elétrica, construção civil e chão de fábrica estaria usando as suas. Via todas aquelas estampas comuns às galochas femininas dessa nova leva fashion, calçava e não ficava à vontade, sentia-me fantasiada. Então, quando encontrei as mais básicas possíveis, escolhi o fornecedor confiável mais barateiro e levei na mesma hora.

As galochas foram finalmente encontradas no Mercado Livre depois de muito procurar e as botas de vaqueiro na Dafiti, ambas sintéticas obviamente.

Outros sites muito bons e seguros para compras são a Passarela e Posthaus, mas não compre em hipótese alguma na Cosse Galochas (ou Armazem 66)- são uma fraude já denunciada e registrada na Polícia Federal. É incompreensível que ainda não tenham retirado o site do ar após tantas denúncias, leia melhor na página exclusiva do facebook, Cosse Galochas, a fraude!

A Melissa, que todas amamos, também fabrica lindas botas plásticas, cheguei a comprar um par há alguns anos mas tive que trocar, pois o modelo específico machucou meu tornozelo. Tomara que você não tenha o mesmo problema, tudo deles é lindo, com design moderno e animal friendly.

A Crocs também fabrica e vende galochas pela internet, mas parece que agora usam o site Netshoes como distribuidor e intermediário.

Eu gostei muito de comprar calçados em materiais sintéticos pela internet, é mais simples do que ficar perguntando para as vendedoras o que é ou não em couro animal. Eu sempre saía das lojas com a sensação de que poderia ter sido enganada quando não comprava das marcas que trabalham exclusivamente com sintético, como a Piccadilly e a Beira Rio, por exemplo. Pelos grandes sites, você pode escolher só o que for fabricado no seu material preferido e ir em frente sem medo.

Comprando qualquer coisa pela internet, pesquise antes as reclamações sobre a empresa no Google, a maioria das empresas mantém páginas no Facebook e os comentários dos compradores são o melhor termômetro.


Dica para quem anda muito e não tem grandes mordomias: comprando botas, leve um número acima, principalmente se for de salto, bico fino ou galocha plástica, que não molda de acordo com o formato do seu pé e não vai amolecer nunca.



Sugestão aos fabricantes, à turma da Gooc por exemplo: Que tal fabricar galochas com e sem salto (anabela para não envergar com o peso) a partir da borracha de pneus reciclados?



Mais informação:
Lenços 
"Verde" é sexy

Jóias são insustentáveis
Animal Print em crochê e tricô
Artigos de couro vegetal em lojas convencionais
Bolsas, sandálias e cintos em pneus e cintos de segurança reciclados
Neurocientistas de todo mundo assinam manifesto reconhecendo consciência em animais

domingo, 19 de abril de 2015

Impactos ambientais do maior incêndio de SP, no terminal da Ultracargo no Porto de Santos, podem durar 5 anos



O incêndio, o rescaldo e os resíduos, artigo de Beatriz Carvalho Diniz para Portal Ecodebate

Durou 9 dias o incêndio na Ultracargo [na área industrial da Alemoa, em Santos]. Os impactos ambientais e sociais começaram a ser noticiados quando completou 1 semana. Peixes morrendo, combustível vazado, fumaça, fumaça, fumaça, chuva ácida se chover. A empresa foi multada em 22 milhões de reais e terá de cumprir 5 exigências, entre elas a revisão de seu Plano de Ação de Emergência e de seu Plano de Gerenciamento de Riscos. As dificuldades para apagar o fogaréu indicam como a empresa deveria lidar com riscos para evitar a ocorrência, para não alastrar, para conter e para se relacionar com moradores, órgãos e imprensa. E a conduta protagonista seria o adequado pela gravidade da situação e pela grandeza dos impactos negativos, com prejuízos econômicos, ambientais e sociais que, no final das contas, são compartilhados com a sociedade.

O Brasil tem uma bela e avançada legislação ambiental. Quando ouvimos ôtoridades ou empresários reclamando de licenciamento, estudos de impactos, planos de gestão de riscos e programas de ações preventivas, e vemos um desastre como o incêndio nos tanques de combustíveis da Ultracargo, fica fácil entender que estão errados. O plano para gerenciamento de riscos, com análises quantitativa e qualitativa, com classificação de riscos aceitáveis e não aceitáveis, e um programa de prevenção e controle de acidentes são instrumentos que dariam à empresa as condições de seus gestores terem conduta protagonista antes, durante e depois de um desastre ambiental.

Mas, não basta ter um instrumento de gestão ambiental robusto na teoria, tem que manter atualizado e tem que pôr para funcionar no cotidiano da empresa e na precisão. E estando atualizado e sendo executado, moradores do entorno sabem o que fazer em diferentes situações, pois são treinados previamente. Possíveis impactos são anunciados para a imprensa, junto com orientações básicas de segurança, com a transparência que, pela confiança, anula crises e dispersa alarmes falsos ou sensacionalismos.

Consultamos no site da Ultracargo a seção sobre seus programas, normas e certificações. Entre os programas está o EPA [Examine, Planeja e Aja], que “tem o objetivo de eliminar as situações de risco, estimulando o planejamento adequado à tarefa, garantindo que as atividades de rotina sejam efetuadas com fundamentos de segurança.”, e ponto final. Informações sobre ações executadas ou previstas no programa? Orientações? Tem não… Considerando a periculosidade do negócio, o site deveria ser um canal dinâmico de comunicação com stakeholders, porém, não é aproveitado pela empresa para gerar valor.

A comunicação reflete a gestão de uma empresa, e a gestão determina sua reputação. Apagado o incêndio, o rescaldo cabe aos moradores. É importante que conheçam o plano de gerenciamento de riscos, as ações dos programas, que peçam diálogos efetivos. E se a Ultracargo não apresentou ainda, então, taí a oportunidade. Aliás, essa recomendação serve para qualquer pessoa que more perto de uma indústria, de um complexo industrial, e as associações de moradores e os vereadores podem, e devem, ajudar para que a sociedade tenha acesso e compreensão sobre riscos, responsabilidades e a importância de dialogar.

E é bom ficar de olho no que restou. Outra exigência, importantíssima, é relativa aos de resíduos gerados no incêndio, a empresa vai ter que apresentar um plano específico antes da remoção deles. O local de disposição tem que ser aprovado. Essa operação requer um Certificado de Movimentação de Resíduos de Interesse Ambiental. Sabe por que? Para evitar mais problemas, para proteger o ambiente em que vivemos e do qual tiramos tudo que precisamos, ou seja, para o seu bem estar.

Segue o link para você conferir os motivos da multa e as ações que a Ultracargo deve cumprir, anunciados pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) na quarta 15/04 [matéria do G1 – Cetesb multa Ultracargo em R$ 22,5 milhões após incêndio em Santos]:

Cetesb multa Ultracargo em R$ 22,5 milhões após incêndio em Santos

A Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) anunciou no começo da tarde desta quarta-feira (15) que a Ultracargo será multada em R$ 22,5 milhões pelo incêndio que atingiu o Terminal da Alemoa, em Santos, no litoral de São Paulo, entre os dias 2 e 9 de abril. A empresa confirma que recebeu a autuação e vai analisar o documento.

De acordo com a Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo, a multa foi dada pois a empresa provocou danos ambientais e colocou a população em risco com o incêndio na zona industrial de Santos. A penalidade se baseou nos artigos 61 e 62 do decreto federal 6514/08, que regulamenta a Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/98).

Em nota, a Cetesb diz que a Ultracargo foi multada por lançar efluentes líquidos no estuário de Santos, em manguezais e na lagoa ao lado do terminal, além de emitir efluentes gasosos na atmosfera, colocar em risco a segurança das comunidades próximas, dos funcionários e de outras instalações localizadas na mesma zona industrial. A Cetesb diz também que a Ultracargo ocasionou incômodos significativos no bem-estar da população e provocou a mortandade de milhares de peixes, de várias espécies, no estuário e no rio
Casqueiro, em Cubatão (SP), prejudicando a pesca na região.

Ainda segundo a Companhia, outros agravantes também foram levados em consideração, como a interrupção das atividades de outros terminais da região e do tráfego de caminhões no Porto de Santos, além dos transtornos causados ao tráfego urbano e operações portuárias.

Peixes apareceram mortos durante o incêndio que atingiu a Alemoa (Foto: Robynson Señoraes / G1)

Segundo a Secretaria de Meio Ambiente do Estado, além da multa, a Ultracargo terá de cumprir cinco exigências, que são:

1. Condicionar qualquer remoção de resíduos ou de produtos gerados no incêndio à apresentação de plano específico para esse fim pela Cetesb, que também terá de aprovar o local de disposição desse material, ao emitir o Certificado de Movimentação de Resíduos de Interesse Ambiental.

2. Adotar medidas adequadas na operação de rescaldo do incêndio, para que não haja poluição atmosférica e emissão de substâncias odoríferas fora dos limites do terminal.

3. Realizar novo licenciamento ambiental, nos termos da legislação vigente, para a substituição, adequação ou reforma das instalações e equipamentos colapsados (tanques) ou não.

4. Revisar, no prazo de 30 dias, contados a partir de 14 de abril, o Plano de Ação de Emergência e o Plano de Gerenciamento de Riscos, apontando as falhas que resultaram no incêndio ocorrido no terminal, bem como as medidas preventivas a serem implementadas;

5. Efetuar, no prazo de 30 dias, o monitoramento das águas superficiais do estuário de Santos e lagoa contígua ao terminal, bem como da vegetação do entorno, inclusive de manguezais eventualmente impactados, adotando medidas necessárias para sua recuperação.

Além disso, a Ultracargo terá que contratar uma empresa especializada para fazer o resgate e atendimento emergencial da fauna silvestre aquática e terrestre, bem como o monitoramento de todos os grupos de fauna da área de interesse direto e indireto do local do incêndio, com apresentação de cronograma de atividades, projeto de translocação e eutanásia, e anuência do Departamento de Fauna da Coordenadoria de Biodiversidade e Recursos Naturais, órgão da Secretaria Estadual de Meio Ambiente, e da Polícia Ambiental, para a translocação das espécies que ainda poderão sofrer impacto após o incêndio.

Resposta
Em nota, a Ultracargo confirma que recebeu a autuação da Cetesb referente ao incidente ocorrido em parte do terminal que opera em Santos. A empresa irá avaliar o documento, suas exigências e responderá à autoridade no prazo determinado. A Companhia segue prestando todos os esclarecimentos necessários e continuará em cooperação com as autoridades

Segundo a Companhia Ambiental do Estado, avaliação dos danos começa depois do rescaldo

Os impactos ambientais do incêndio que atingiu seis tanques de uma empresa de Santos, na semana passada, poderão durar pelo menos cinco anos, contaminando plantas e animais. Além disso, com a emissão de poluentes na atmosfera, existe a possibilidade de ocorrência de chuvas ácidas, o que comprometeria a vegetação da Serra do Mar. O alerta é do zoólogo Marcelo Pinheiro, do Campus Litoral Paulista da Unesp.

O incêndio no terminal da Ultracargo — o maior já registrado no Estado de São Paulo — só foi declarado extinto pelo Corpo de Bombeiros na sexta-feira (10), nove dias após ter começado.
Segundo a Cetesb (Companhia Ambiental do Estado), até agora todos os esforços haviam sido concentrados no controle do incêndio e a avaliação dos danos ambientais terá início só após o rescaldo. 

Mas, segundo Pinheiro, é provável que a situação da área de estuário e dos manguezais, que já era crítica, fique ainda pior: bilhões de litros de água que foram usados no resfriamento dos tanques voltaram para o ecossistema aquático com resíduos do combustível e dos produtos químicos que compõem a espuma usada para debelar o fogo.
"Não podemos ainda prever com precisão quanto vai durar o impacto. Mas, dependendo da composição química da espuma e da quantidade utilizada, vai levar de cinco a dez anos para que a natureza se recupere e volte à situação original. Na água, esse produto poderá reagir com outros resíduos químicos, formando compostos mais tóxicos. A contaminação pode repercutir por toda a cadeia alimentar", disse Pinheiro.
— Além disso, os poluentes lançados na atmosfera podem formar a chuva ácida, que queima o tecido das folhas e impede a fotossíntese, matando a vegetação.

Segundo o gerente da Agência Ambiental de Santos na Cetesb, Carlos Eduardo Padovan Valente, ainda não foram detectadas alterações consideráveis na qualidade do ar. Mas a quantidade de oxigênio disponível na água foi reduzida dramaticamente e a temperatura subiu 7°C acima do tolerável para os peixes, o que causou a morte de oito toneladas deles.
— Desde domingo passado não temos mortes de peixes.

As consequências imediatas, porém, são visíveis na região do incêndio. Na Favela Chico de Paula, no mangue ao lado do Porto de Santos, o cheiro lembra o de posto de combustível. Nos carros, moradores apontam marcas de pingos pretos e a fuligem vinda do pátio da Ultracargo, a menos de 500 metros de palafitas e barracos, onde moram cerca de 30 mil pessoas.

A fumaça preta que cobriu a comunidade também agravou a situação de moradores que sofrem de doenças respiratórias. "Estou com uma dor de cabeça que não passa. Quando bate um vento e a fumaça vem com mais força, a gente tem até de fechar a janela", disse a dona de casa Ana Paula Palhas, de 38 anos. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.



As consequências imediatas são visíveis na região do incêndio

Pesquisador critica a maneira como as autoridades ambientais estão tratando o assunto

Mais de 8,5 toneladas de peixes morreram por contaminação, e chuva ácida também é esperada. Pesquisadores classificam impacto como “devastador”.

O Corpo de Bombeiros mantém o combate a pequenos focos de incêndio que persistem nas bacias de contenção, que ficam no entorno dos cilindros atingidos pelo incêndio no pátio da Ultracargo, no complexo industrial da Alemoa, em Santos. O incêndio atingiu cinco dos 175 tanques de combustíveis.
Os moradores do bairro Alemoa, o mais próximo da unidade santista da empresa, puderam permanecer em suas casas, mas estão com medo. Além da fumaça escura, eles relatam o aparecimento de peixes mortos no rio Casqueiro, que corta a Alemoa e deságua na baía na Santos.
“Estão recolhendo tudo, mas a cada dia aumenta o número de peixes mortos que aparecem boiando”, conta Maria Lúcia Cristina Jesus Silva, presidente da Associação de Moradores do Alemoa. “O cheiro de peixe podre é muito forte.”

Um laudo da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) confirma o impacto ambiental do incêndio. Análises feitas em vários pontos de saída de água para o combate ao fogo indicam que peixes morreram devido à baixa oxigenação e temperatura elevada.
“A esses dois fatores soma-se a presença de combustível, constituindo as causas mais prováveis da mortandade de peixes ocorrida no estuário”, comunicou em nota nesta quarta-feira (08/04) Cetesb. A companhia informou à DW Brasil que recolheu 8,5 toneladas de peixes mortos.

Segundo a Cetesb, a medição feita na terça-feira no bairro Bom Retiro, a 3 km do local do incêndio, registrou qualidade boa, “indicando que a fumaça não está afetando a comunidade no entorno”. Questionada pela reportagem, a companhia negou que a poluição causada pelo fogo nos tanques de combustíveis possa estar sendo carregada para outro lugar.
“Na atmosfera, os poluentes estão presentes, mas ficam restritos à área do evento. No entorno, ou seja, num raio acima de 3 km (onde existem residências), o monitoramento da qualidade do ar feito pela Cetesb não acusa concentrações acima dos padrões legais, ou seja, não oferece risco à população”, respondeu a companhia por e-mail.

Poluição e chuva ácida
Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em São Vicente, Baixada Santista, discordam. “A direção dessas partículas depende da dinâmica atmosférica, em alguns momentos elas seguem na direção do mar, pairam sobre a Serra do Mar, ou sobre a cidade, por exemplo”, analisa Davis Gruber Sansolo, coordenador do laboratório de planejamento ambiental e gerenciamento costeiro.

O pesquisador critica a maneira como as autoridades ambientais estão tratando o assunto. “É de uma irresponsabilidade absurda. Eles preferem ter uma postura política de diminuir o problema sem mesmo ter consciência da dimensão. Deviam ter um diálogo sincero com a população e deixar claro que a dimensão do problema ainda não é conhecida.”

Além da mortandade dos peixes, outro efeito de curto prazo esperado por pesquisadores é a chuva ácida. “Como há queima de hidrocarbonetos, a reação que dá com a água na atmosfera precipita chuva ácida. A gente não sabe exatamente qual é a intensidade do impacto que a precipitação desses poluentes pode causar tanto na saúde humana como nos CORPOS d´água”, analisa Sansolo.
Parte dessas partículas já pode ter atingido o solo durante uma chuva que caiu na região no último sábado. 

Caso essa chuva caia sobre a Serra do Mar, muito próxima ao local, haverá impacto sobre a floresta, preveem os pesquisadores. “Mas tudo terá que ser monitorado ao longo do tempo. Os efeitos na água, no ecossistema e na recomposição dele”, pondera o pesquisador. “Mas os efeitos são devastadores.”

Região estratégica
A Baixada Santista tem um histórico de problemas ambientais. As principais fontes de poluição são as indústrias, o despejo de esgoto sem tratamento e as atividades no porto. Ao mesmo tempo, é um ponto estratégico para o país: liga todas as regiões produtivas do planalto paulista ao mundo.
O estuário, local de transição entre rio e mar, é um ambiente de reprodução de espécies marinhas. Em Santos, várias se multiplicam, principalmente nas áreas de mangue, para depois habitar a área marinha. O local também é um receptor da poluição provocada pelo incêndio.
Especialistas ainda não conseguem dizer o que pode acontecer no ecossistema a longo prazo. Segundo o Núcleo de Estudos sobre Poluição e Ecotoxicologia da Unesp, a poluição já iniciou um processo de mortandade total sobre vários organismos no estuário.

Ainda não se sabe o que provocou o incêndio no terminal da Ultracargo. O Ministério Público Estadual instaurou inquérito para apurar as responsabilidades e investigar os impactos ambientais causados.
Para a promotoria, a culpa da empresa é clara, mesmo que o fogo não tenha sido intencional. Por meio de nota, a Ultracargo informou que “assim que as circunstâncias permitirem, a empresa avançará na investigação para apurar as causas do incêndio”.


Seis tanques de combustíveis foram atingidos pelas chamas e, nesta segunda-feira, bombeiros ainda tentavam combater o incêndio em dois delesFoto: Fernando Nascimento / Sigmapress / Estadão Conteúdo

A cortina de fumaça preta que cobre parte do céu de Santos (SP) deixa apreensivo quem a testemunha. Moradores de bairros vizinhos ao depósito da empresa Ultracargo, cujos tanques com 6 milhões de litros de combustíveis cada estão em chamas desde quinta-feira, temem os efeitos do incêndio na saúde e no meio ambiente. Enquanto isso, a fuligem mancha paredes, e a qualidade do ar se deteriora.

A Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) classificou, nesta segunda-feira, a qualidade do ar na região do incêndio como N3-Ruim, em uma escala que vai de N1-Boa a N5-Péssima. A liberação de gases poluentes, resultado da queima de combustíveis como gasolina e etanol, pode causar efeitos imediatos no sistema respiratório. São substâncias que estão diariamente na atmosfera em função do próprio uso de veículos, por exemplo, mas que apresentam riscos maiores quando a exposição é em quantidades expressivas e por longos períodos.
— Um acidente deste tipo tem consequências imprevisíveis. Não sabemos, por exemplo, quanto tempo essa fumaça ficará no ar. Provavelmente, a longo prazo, haverá consequência principalmente para quem já tem alguma doença respiratória — aponta a diretora do Instituto de Toxicologia e Farmacologia da PUCRS, Maria Martha Campos.

O contato com o dióxido de enxofre — substância resultante da queima de gasolina — pode causar, de imediato, tosse seca, irritação e ardência nos olhos, nariz e boca em quem está mais próximo ao foco do incêndio. Conforme a pneumologista do Hospital de Clínicas Marli Maria Knorsd, o efeito seguinte seria a inflamação das vias aéreas e até mesmo falta de ar. Porém, ela alerta que as consequências dependem diretamente da intensidade da exposição aos gases poluentes. Marli diz, ainda, que estudos mostram o agravamento de problemas cardiovasculares em momentos de picos de poluição.
— Se a concentração (de gases poluentes, como dióxido de enxofre) é alta, pode tanto causar doenças em quem não tem, quanto novos sintomas em quem já sofre de alguma, como asma ou bronquite. Se a pessoa já tem uma doença respiratória ou cardíaca, ela faz parte de um grupo mais suscetível — diz Marli.
Em casos de alta exposição, a inalação dos poluentes pode evoluir para um edema pulmonar e, em quem sofre de doença cardiovascular, causar até um infarto.

Incêndio causa também danos ambientais
Conforme a Cetesb, as condições meteorológicas de Santos favorecem a dispersão de partículas — ou seja, as correntes também podem prejudicar o ar de localidades vizinhas. Especialistas alertam que, caso a qualidade piore, moradores mais próximos devem ser orientados a deixarem as suas casas.

Outro risco diz respeito ao dano ambiental. Um relatório preliminar da Ultracargo aponta que o incêndio provocou a contaminação da água do canal do estuário de Santos e pode ser a causa da morte de milhares peixes. "A água usada para conter as chamas foi despejada no estuário pelo sistema de escoamento da Ultracargo contaminada com combustível, provocando alteração da temperatura e saturação do oxigênio, provavelmente causando a morte dos peixes", divulgou a Cetesb. Para o coordenador do curso de Engenharia Ambiental da Unisinos, Carlos Alberto Moraes, esse é o primeiro de uma série de possíveis efeitos decorrentes do acidente.
— O hidrocarboneto (combustível com base no petróleo) atinge a água, dificulta a luminosidade do céu e a transferência de oxigênio, o que leva rapidamente à mortandade de peixes por sufocamento e, também, por ficar com o óleo impregnado na pele — explica. — Já a questão da fuligem, que com o vento é disseminada, pode gerar um aceleramento de corrosão das espécies nativas, queima das folhas das árvores e a própria geração de chuva ácida decorrente do contato desses gases com a umidade.

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) afirmou, por meio de nota, que analistas da equipe de emergências ambientais de São Paulo vêm acompanhando diariamente o acidente, mas que ainda é muito cedo para fazer qualquer avaliação sobre impactos ambientais.



Incêndio em tanques de combustível provocou enorme desastre ambiental na Serra do Mar e manguezais. 

Por que “Folha”, “Estado” e “Globo” continua a ocultá-lo?

O incêndio que eclodiu às 10 horas da manhã de quinta-feira (2/4), nos tanques da distribuidora Ultracargo, em Santos, pode resultar em grave desastre ambiental, mas pouca gente vai ficar sabendo sua real dimensão.
Três dias depois, os principais jornais do País pareciam não haver se dado conta da intensidade e das consequências do fogo que consumia milhões de litros de combustíveis na ilha da Alemoa.

Uma espécie de sonolência atingiu as redações, que em outras ocasiões investigaram e deram grande destaque a acidentes desse tipo.
A exceção tem nome: já no dia seguinte à primeira explosão, o Expresso Popular, que pertence ao grupo A Tribuna, de Santos, estampava na capa apenas dois títulos. Na manchete, sobre uma foto de página inteira, resumia a gravidade do incêndio: “Sem controle”.

No pé da página, informava: “Filho caçula do governador Alckmin morre em queda de helicóptero”.
Entre os aspectos mais importantes, destacavam-se em subtítulos dois fatos que os principais jornais do País deixaram de lado: “Combate ao fogo não tem dia nem hora para acabar”; e “Há risco de dano ambiental na Serra do Mar”.

Nesta segunda-feira (6/4), quatro dias depois que o jornal popular da Baixada Santista havia alertado para a grande dimensão do desastre, o Estado de S. Paulo admite, em nota de duas linhas na primeira página, que “Incêndio em Santos ameaça meio ambiente” e a Folha de S. Paulo posta uma foto com legenda informando que, 80 horas após a primeira explosão, observa-se a morte de peixes e moradores são obrigados a deixar suas casas.

Ou seja: os grandes jornais levaram três dias para admitir a gravidade da situação, detectada no primeiro momento pelo Expresso Popular.

Ainda no domingo, o site Globo.com informava, erradamente, que um laudo preliminar da Cetesb apontava a ocorrência de poluição grave na água da região; mais tarde, a informação foi corrigida: o laudo era da Ultracargo, não da Cetesb.

Dois dias antes, a empresa estatal de controle ambiental havia divulgado nota, sem contraponto dos jornais, afirmando que a fumaça que alcançava 50 metros de altura e espalhava cinzas e partículas incandescentes pela região, não representava perigo.
Movidos a press-release


Ainda no domingo, os dois principais jornais paulistas haviam noticiado que o governo do Estado decidira criar um gabinete de crise para acompanhar a situação.
A maior parte das iniciativas era tomada pela Prefeitura de Santos, que desde o primeiro momento havia mobilizado a Petrobras e órgãos federais.

O governo paulista parecia paralisado pela morte do piloto Thomaz Alckmin, filho do governador de São Paulo, ocorrida na tarde da mesma quinta-feira, em um acidente de helicóptero.
Compreende-se que o governador estivesse fora de combate, e a ninguém ocorreria ir perguntar a ele, em meio ao luto, o que estava sendo feito para controlar a situação na Baixada Santista e manter a população informada sobre o desenrolar do incêndio.
Mesmo porque, com o feriado da Páscoa, era previsto grande movimento de turistas em direção ao litoral. Mas o Estado tem um vice-governador, secretários, técnicos, e a empresa de controle ambiental.

Os jornais simplesmente compraram a primeira versão oficial, segundo a qual não era preciso tomar providências especiais nem nos bairros mais próximos ao terminal da Alemoa, e não estranharam o fato de que um gabinete de crise só foi montado no terceiro dia após a primeira explosão.
Ressalte-se que o grupo de acompanhamento não inclui um representante da Secretaria da Saúde, mas tem entre seus participantes o sub-secretário de Comunicação.

O perfil é muito parecido com o do gabinete de crise que foi instituído mais de um ano após o esgotamento das principais reservas de água na região metropolitana de São Paulo.
Em condições normais de bom jornalismo, não teria escapado às redações o fato de que, não apenas em São Paulo, mas na administração pública em geral, a gestão de crises quase sempre se limita ao potencial de estrago que as emergências podem provocar na imagem dos governantes.

No caso do incêndio em Santos, as informações mais importantes para que o cidadão tomasse suas precauções foram dadas no primeiro momento pelo Expresso Popular.
Os grandes jornais mandaram repórteres e fotógrafos para registrar o fogo espetacular, mas rechearam suas reportagens com os press-releases do governo.
Quase dá para ver as cinzas do bom jornalismo sob as chamas da Alemoa.


Na Folha: Sindicato indicou falhas na ultracargo 7 meses antes de incêndio



Mais informação:
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quarta-feira, 15 de abril de 2015

Apresentando um catador da Amazônia ao restaurador de São Cristóvão e morando em cima de um antiquário e brechó no Maracanã

"O lixo de um homem é o tesouro de outro", provérbio popular norte-americano

Eu conheci o Virgílio Moura há alguns anos no escritório da Fibra, que produz o skate de bambu e faz um trabalho sério em ecodesign. Identifiquei-me com ele imediatamente, português de nascimento e morador do Pará, o Virgílio faz um lindo trabalho em madeira a partir de madeiras que encontra na rua e em projetos de manejo, não se define como marceneiro, xilólogo ou artesão e designer, mas como catador:

"Sou um catador, não derrubo árvores, nem serro madeira, todas as peças de minha autoria são realizadas a partir de sobras de processos de transformação da árvore em peças de madeira. Das sementes, cipós, raízes e galhos recolhidos dos processos de manejos florestais e das madeiras alternativas que são retiradas das podas das árvores urbanas nos quintais, praças e ruas da Cidade."

E não pense que Virgílio trabalha com galhinhos, já vi fotos dele cercado de toras imensas, do tamanho de um campo de futebol, árvores comprometidas que virariam entulho não fosse seu olhar. Pelo meu Facebook, Virgílio descobriu outro amigo, o Eraldo, proprietário de um Antiquário em São Cristóvão, bairro daqui do Rio, vizinho ao que moro, o Maracanã. Por sua vez, conheci o Eraldo por ter sido vizinha da namorada dele, Patrícia, proprietária de um antiquário e brechó em sociedade com sua irmã também aqui no Maracanã.

São Cristóvão, como a toda a Tijuca é um bairro antigo e centenário e por isso, sobraram muitas casas do início do século XX e algumas até do século XIX. São todas lindas e é de partir o coração ver quando alguma é posta abaixo para dar lugar a um edifício. Eu morei nos últimos 2 anos numa casa de rua, na verdade numa casa de rua desmembrada. Casa de rua é perigoso, casa de vila pode ter pouca privacidade - especialmente em vilas de casinhas contíguas. As vilas de casas grandes e de meio de terreno com quintal estão cada vez mais raras... Então, quando a veterinária dos meus cães disse que estava saindo de uma espécie de vila alternativa, que queria passar o imóvel adiante, eu fui ver e o tempo mostraria que vale a pena. Na hora, tive preconceito e pensei "É um puxado". Não era e a privacidade é indescritível, além de uma forma inteligente de manter essas casas imensas, geralmente encaradas como um elefante branco, de pé. Hoje, encaro como um sobrado, onde aluguei o andar de cima.
Foi nessa casa em que passei 2 anos sem gás por ter medo de botijão e então, tive que me virar com panela elétrica, grill, sanduicheira e até um forno solar - cozinhando tudo sem forno e fogão numa boa.

E por ter um brechó-antiquário no andar debaixo, ainda comprei tantas coisas lindas sem culpa nenhuma, bem baratinho e de segunda mão. Todos os copos antigos e bandejas de prata, que normalmente são dados em listas de casamento, comprei por uma merreca bem no andar de baixo, 100% reciclados.
E assim, conheci o Eraldo, que compraria todos os meus móveis para revender no Antiquário dele, quando saí desse sobrado e vim para um apartamento na mesma rua, dessa vez próprio. Graças a Deus.

O Antiquário-brechó da Patrícia e Isa aparece aqui em duas postagens, no guia de compras da Tijuca e cedendo generosamente o manequim que vestiu os crochês que Mafê me deu de presente e, na época eu obviamente não mencionei que morava no andar de cima.

Então, quando o Virgílio veio ao Rio, juntamos tudo isso na loja do Eraldo em São Cristóvão, que fica num ponto ótimo, ao lado do Pavilhão e do Adegão Português, bem pertinho do Museu de Astronomia, lugares que amo.



  
 




Os telefones brasileiros já tiveram apenas 6 algarismos!



O aparelho de televisão Panasonic é laranja e funciona perfeitamente.



O único piano de fórmica marmorizada azul que já vi.




Eraldo e Virgílio, sentado numa cadeira de barbeiro, tratando da vida.






O Antiquário e brechó das 2 irmãs, Patrícia e Isa, na mesma casa onde morei. Por 2 anos, subi essa escadinha lateral  de acesso ao segundo andar todos os dias. Essa imensa bola de ferro embaixo da escada servia para transportar escravos e aparecem várias iguaizinhas no filme "Gangues de Nova Iorque", expondo escravas brancas na festa do Teatro Chinês!




A mesinha das tentações armada pela Patrícia quase na calçada onde liquida peças menores e eu fiz a feira, é claro.





O prêmio desenvolvido pelo Virgílio para a Bienal de Marketing:




Outros trabalhos do Virgílio:






Site com trabalho do Virgílio: Blog do Virgílio Moura

Site do Antiquário do Eraldo: Brechó Antigo

Página no Facebook do Brechó e Antiquário da Patrícia e Isa: Novidades & Antiguidades, que também organiza maravilhosos leilões online, para você comprar tudo de pijama sem culpa e onde podem ser encontradas coisas incríveis como esse poster emoldurado do Festival de Woodstock por apenas R$20,00 - repare que, à época, o ingresso promocional para os três dias custou US$18,00!







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domingo, 12 de abril de 2015

Eucalipto transgênico, o que você precisa saber

EUCALIPTO TRANSGÊNICO – O QUE VOCÊ PRECISA SABER





“Eucalipto transgênico vai sugar água até que ela acabe”
Para Leonardo Melgarejo, engenheiro agrônomo e ex-membro da CTNBio, aprovação de nova modalidade irá resultar em um grande consumo de água e impactos ambientais ainda não medidos
A votação sobre a liberação do plantio do eucalipto transgênico acontece nesta quinta-feira (9) na Coordenação-Geral da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). Adiada em março por conta de protestos das mulheres do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a aprovação do eucalipto preocupa especialistas, que consideram a modalidade um risco ao meio ambiente e a produtores.
Leonardo Melgarejo, engenheiro agrônomo que já foi membro da CTNBio, afirma que “em cinco anos o eucalipto geneticamente modificado retiraria do solo o mesmo volume de água e nutrientes que o eucalipto tradicional levaria sete anos para incorporar.Uma lavoura sedenta será substituída, após cinco anos, por outra lavoura sedenta”.
Abaixo, confira a entrevista de Melgarejo à Agência Brasil de Fato, sobre o eucalipto transgênico e o papel da CTNBio na sociedade:

Uma noção muito difundida na sociedade hoje é que, se não existissem as florestas de eucaliptos das grandes empresas, não teríamos papel no Brasil. Isso é verdade?
Há um enorme exagero nesta afirmativa. E a distorção é ainda maior quando alguns formadores de opinião insistem que não existiriam livros e que o sistema educacional resultaria prejudicado, caso houvesse redução na produção de pasta de celulose.
A esmagadora maioria do produto destas indústrias não se destina a fazer papel, e sim embalagens, como caixas que jogamos fora quase imediatamente, cujo uso é mais restrito do que o do papel higiênico.
Onde não há reciclagem estas caixas servem para pouca coisa além de principiar fogo ou engrossar o lixo. O que essas empresas produzem alimenta cadeias de desperdício.

Quais são os impactos ambientais causados pelas plantações de eucalipto?
Elas geram desertos. Na forma em que são cultivadas para extração de celulose, constituem blocos enormes que são refratários a todas as formas de vida.
O sombreamento dificulta a proliferação de outras plantas e a escassez de alternativas de alimentos dificulta a sobrevivência de animais e insetos. A densidade de plantas provoca elevado volume de extração de água do subsolo.
A capa que cobre o solo retém a maior parte das águas da chuva, dificultando o reabastecimento dos lençóis freáticos.

De que forma esses impactos aumentariam com a aprovação do eucalipto transgênico? 
Segundo a empresa que detém as patentes, o eucalipto transgênico produz o mesmo volume de madeira que o não transgênico em menos tempo.
A rapidez de transformação de água, luz e nutrientes, em termos de eucalipto, seria aumentada em 30%.
Em outras palavras, em cinco anos o eucalipto GM (geneticamente modificado) retiraria do solo o mesmo volume de água e nutrientes que o eucalipto tradicional levaria sete anos para incorporar.
Evidentemente em situações de escassez de água o problema se agravaria. Os estudos mostram que na fase de crescimento as necessidades de água são maiores, estabilizando-se quando a árvore é adulta. Ora, estas florestas de eucaliptos são cortadas exatamente antes desta estabilização do consumo.
Uma lavoura sedenta será substituída, após cinco anos, por outra lavoura sedenta, que em cinco anos dará lugar a outra. As áreas com florestas de eucalipto serão bombas de sucção d’água, trabalhando em metabolismo acelerado até que acabe a água.

O cultivo de eucalipto transgênico pode comprometer a produção de alimentos no país?
Sim. A expansão de lavouras de eucalipto sobre áreas ocupadas com outras atividades, em especial nas áreas destinadas à produção de alimentos, pode reduzir a oferta de produtos ao consumo humano.
Isto ocorreu com a expansão das lavouras de cana, de soja, de algodão, e tende a se repetir em todas as monoculturas de exportação. Agricultores familiares envolvidos com a produção de alimentos são deslocados de suas atividades, o que repercutirá em redução na oferta de leite, mandioca, etc.
Ao contrário do que se afirma, o fato de se poder cultivar um eucalipto que cresce mais rápido não reduzirá a área ocupada com esta cultura. Ocorrerá o oposto. Ao se tornar uma atividade mais atraente sob o ponto de vista de retorno do capital investido, a área cultivada com ao eucalipto transgênico deverá crescer comparativamente ao que ocorreria em sua ausência.

Do ponto de vista do mercado, como falar que o eucalipto transgênico aumentará a produtividade, se apenas uma empresa detém as suas patentes?
Não haverá ganhos globais de produtividade. O clone mais produtivo, tendo um dono, só será utilizado por concessão desta empresa. A produtividade média não será alterada, a não ser que a empresa resolva permitir que seus concorrentes utilizem o mesmo material genético.
O dossiê da empresa afirma que a introdução de dois transgenes, um destinado a alterar a estrutura da celulose, alongando células, e outro que serve como marcador de seleção, teriam tornado o eucalipto mais produtivo.
É difícil aceitar esta afirmativa, porque os mesmos transgenes já haviam sido apresentados como modificadores da estrutura da madeira, sem impacto sobre a produtividade.
Aparentemente a empresa provocou a modificação inserindo aqueles transgenes sobre um clone mais produtivo, que por suas características próprias não dependeria da modificação para produzir maior volume de madeira em menor tempo.
Assim, a empresa poderia estar usando este fato (uma base mais produtiva) para forjar um discurso de que a transgenia aumenta a produtividade.
Um clone mais produtivo não dá direito de patente. Mas um eucalipto com um transgene patenteado por uma empresa confere a esta empresa direitos exclusivos sobre aquela planta.
Ganhos de produtividade são difíceis de obter, pois a produtividade é construída ao longo das relações que a planta estabelece com o ambiente, e depende de tantos fatores que não é possível aceitar o discurso desta empresa.

A preocupação com a produção e exportação de mel orgânico é grande. De que forma os produtores serão afetados, caso o eucalipto transgênico seja aprovado?
O pólen transgênico estará presente no mel, no própolis, na geleia real e em todos os seus derivados. No mercado de orgânicos isto é considerado inaceitável. Simples traços de material GM implicam rejeição, exclusão de qualquer produto.
O Brasil perderá acesso aos mercados de produtos orgânicos. Uma pena, pois hoje somos o principal produtor mundial de própolis verde e temos possibilidades enormes de crescimento em outras linhas de produtos.
A apicultura se mostra uma excelente alternativa de renda para a agricultura familiar e este mercado está em franco crescimento. Tudo isso será perdido.

Foram apresentados estudos que comprovam que o eucalipto transgênico é melhor economicamente e não causa danos ambientais à CTNBio? Se sim, que estudos foram esses?
Não. Os estudos são falhos, incompletos e insuficientes. Uma curiosidade ilustra a gravidade do tema. A CTNBio avalia os pedidos de liberação comercial com base em dossiês preparado pelas empresas.
O dossiê deve incluir laudos, pesquisas de laboratório, pareceres diversos e, principalmente, pesquisas de campo aprovadas pela CTNBio, onde serão levantados dados que garantirão a inexistência de danos para o ambiente, entre outras informações.
Não é surpreendente que a empresa tenha encaminhado seu pedido de liberação comercial antes de apresentar os resultados de boa parte dos estudos aprovados pela CTNBio para avaliação a campo do eucalipto transgênico? Alguns destes estudos ainda estão em andamento e seus resultados deixaram de ser necessários? Como isso é possível?
Faltam estudos sobre o consumo de água, os impactos em polinizadores, os danos ambientais e socioeconômicos a populações afetadas indiretamente pela expansão das lavouras de eucalipto.
Também é surpreendente a constatação de Paulo Kageyama [integrante da CTNBio e professor da Universidade de São Paulo contrário à liberação do eucalipto transgênico]: na avaliação de alguns membros da CTNBio, favoráveis ao pedido de liberação comercial do eucalipto GM, não foram incorporados nem considerados estudos adicionais aos apresentados pela própria empresa.

Por que a comissão aprova patentes transgênicas de forma rápida e sem estudos aprofundados? Que impactos os transgênicos causam para produtores e consumidores?
A discussão sobre transgênicos, em geral, é bem mais ampla do que sugere o caso do eucalipto. As lavouras de milho transgênico, que carregam proteínas inseticidas e são veículos para transporte de resíduos de herbicidas mereceriam avaliação detalhada.
Estas lavouras estão ampliando o volume de venenos aplicados no meio rural, com impacto sobre o solo, a água e as populações ali residentes. Mas não apenas isso. Os produtos destas lavouras são veículos que unem a aplicação de venenos à mesa dos brasileiros.
O cuscuz, o milho verde, a polenta, o pão estão levando resíduos de venenos até o prato de cada um de nós. O veneno na comida já é um impacto, e podemos esperar que haja impactos maiores.
Não sabemos o tamanho do problema. Sabemos apenas que não é possível afirmar, com seriedade, que os transgênicos e seus pacotes tecnológicos não fazem mal para a saúde. E podemos suspeitar que façam.
Não existem estudos epidemiológicos comparando populações que comem transgênicos com populações livres de transgênicos. Se houvesse empenho, seria fácil avaliar populações de ratos, porcos, galinhas, comendo rações com e sem transgênicos. 
Mas há um bloqueio que dificulta a realização destas análises. O único estudo de longo prazo realizado com este tipo de protocolo mostrou que ratos alimentados com o milho NK603, da Monsanto, começam a apresentar alterações cancerígenas após os 100-120 dias de consumo.
Vários estudos independentes, publicados em revistas cientificas especializadas, associam os pacotes tecnológicos das lavouras transgênicas e seus herbicidas ao aumento de câncer, a problemas neurológicos, a alterações na taxa de fertilidade e a alterações hormonais de diversos tipos.
E os impactos vão além disso. Não se trata apenas de uma questão de saúde pública. As implicações alcançam o tema da soberania nacional. Precisamos de sementes para plantar as safras de soja e milho, sementes que pertencem a meia dúzia de empresas. Se elas assim decidirem, podem ameaçar o país com desabastecimento.

Ao aprovar transgênicos dessa forma, os representantes da CTNBio seguem uma lógica do mercado ao invés do interesse da sociedade. Por que isso ocorre?
É difícil interpretar as razões que levam os membros da maioria, na CTNBio, a atribuir tamanha confiança aos escassos argumentos apresentados pelas empresas e, ao mesmo tempo, negar atenção a estudos reunidos na literatura independente, que contrariam as campanhas de marketing.
Existem membros ativos da comissão incondicionalmente a favor dos transgênicos, e uma maioria silenciosa que acompanha esses “líderes”, por confiança em suas posições e, em função disso, negando argumentos opostos.
Assim, quando membros que examinam um processo e argumentam que os estudos ali contidos são insuficientes, incompletos, falhos ou mesmo errados, a maioria – que não leu o processo – ignora aquelas afirmativas, dando preferência à fala de outro parecerista que, tendo lido o processo, se diz satisfeito com os argumentos ali contidos.
Não há confronto de argumentos. Não há choque de opiniões com prevalência de documentos e emergência de conscientização coletiva. Há um movimento de bloco, com resultados previsíveis, condicionado pela seleção dos membros da CTNBio.

Por que não há maior participação da sociedade nas reuniões da comissão?
As reuniões são realizadas em Brasilia, em salas pequenas. As plenárias, embora abertas ao público, implicam em custos de deslocamento e estadia que se fazem proibitivos para representações da sociedade civil.
Assim, apenas representantes das empresas monitoram o que se passa naquele ambiente, estimulando movimentos no interesse de seus objetivos.
Isto poderia ser mais equilibrado, utilizando mecanismo simples. Bastaria veicular ao vivo os debates da CTNBio, utilizando um canal aberto como a TV Senado, ou mesmo o Youtube. Não existem impedimentos técnicos para isso.
E, com transmissão ao vivo, os membros seriam mais cautelosos em relação aos argumentos que apresentam e aos desdobramentos de suas decisões.

Por que a decisão de aprovar transgênicos só cabe à CTNBio?
O caráter das decisões ali tomadas não deveria ser definitivo. A CTNBio deveria ser uma instância consultiva, subordinada à avaliação final de profissionais da área de riscos para a saúde, como o Ministério da Saúde e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), para o meio-ambiente, com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e o Ministério do Meio Ambiente. Considerando ainda questões agronômicas, com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), e os riscos socioeconômicos, com o Ministério do Desenvolvimento Agrário.
Não é aceitável que as decisões resultem de votos de membros que, na maioria das vezes, sequer leram os processos em avaliação e que não terão responsabilidades sobre as consequências de suas decisões.
O Brasil tem instâncias profissionais que devem estar acima dos pareceres da CTNBio, e não submetidas a eles.

A votação do eucalipto foi adiada em março por conta de mobilizações das mulheres do MST. Para que a CTNBio considere os interesses da sociedade, será preciso sempre pressionar e fiscalizar seu trabalho?
A sociedade tem o dever de pressionar e fiscalizar o trabalho de todas as agências do governo e a democracia só crescerá com isso.
Sem isso, os membros da CTNBio podem se sentir à vontade para decidir sobre a autorização de plantio de uma variedade transgênica sem levar em conta a planta modificada e suas conexões com o ambiente, avaliando apenas algum gene que tenha sido inserido e alguma proteína a ele associada.
A CTNBio, com certeza, se inclui entre as áreas críticas no que diz respeito a questões de biorrisco. As decisões ali tomadas têm implicações importantes para a saúde, o ambiente e não podem passar despercebidas, criando, no interesse de poucos, fatos consumados que afetarão a todos.
Felizmente, as mulheres camponesas, principais responsáveis pela Politica Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, chamaram atenção para esta questão do eucalipto, que também se estende ao milho, a soja, ao feijão, ao sorgo, à laranja, alface e a tantos outros produtos em fase de modificação transgênica.
Espero que seu exemplo seja seguido pelo Ministério Público Federal e por comissões de ética das categorias profissionais representadas dentro da CTNBio. Espero que a sociedade aproveite o momento para debater a forma de atuação da CTNBio e suas implicações para o Brasil


Inca se posiciona contra transgênicos e agrotóxicos
O Instituto Nacional de Câncer (Inca) divulgou, no dia 8 de abril, documento com o posicionamento da entidade acerca dos agrotóxicos e ressalta os riscos da utilização de venenos agrícolas para a saúde animal e para o meio ambiente. Como solução, o Inca aponta a observação do Princípio da Precaução e o incentivo à agroecologia.
O Inca destaca o impacto da utilização de sementes transgênicas [que iniciou de forma criminosa, através do contrabando de material genético] nas lavouras.
“É importante destacar que a liberação do uso de sementes transgênicas no Brasil foi uma das responsáveis por colocar o país no primeiro lugar do ranking de consumo de agrotóxicos, uma vez que o cultivo dessas sementes geneticamente modificadas exigem o uso de grandes quantidades destes produtos.”
O documento cita, também, os últimos resultados do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos da Anvisa, que “revelaram amostras com resíduos de agrotóxicos em quantidades acima do limite máximo permitido e com a presença de substâncias químicas não autorizadas para o alimento pesquisado”.
“Os agrotóxicos são produtos químicos sintéticos usados para matar insetos ou plantas no ambiente rural e urbano. No Brasil, a venda de agrotóxicos saltou de US$ 2 bilhões para mais de US$7 bilhões entre 2001 e 2008, alcançando valores recordes de US$ 8,5 bilhões em 2011 maior consumidor mundial de agrotóxicos, ultrapassando a marca de 1 milhão de toneladas, o que equivale a um consumo médio de 5,2 kg de veneno agrícola por habitante 2″.


Considerações sobre o Eucalipto Transgênico H421 da FuturaGene/Suzano Papel e Celulose
por Paulo Yoshio Kageyama, professor titular da USP, agrônomo e doutor em genética


Trata-se de mais um pedido de aprovação comercial de transgênico, agora do eucalipto, requerido pela FuturaGene/Suzano Papel e Celulose, visando ao aumento da produtividade de celulose e diminuindo o ciclo de corte de 7 para 4 ou 5 anos.
Esse pedido, segundo avaliação na audiência pública realizada e manifestações de diversos pesquisadores e instituições idôneas, não apresenta condições mínimas exigidas na análise de biossegurança para sua aprovação.
Sendo o eucalipto uma espécie perene, isso faz com que os problemas de impactos sobre o meio ambiente (água, biodiversidade e solos) e saúde humana (mel e pólen) sejam mais agravados ou desconhecidos quando comparados às culturas agrícolas já aprovadas.
Com relação aos impactos na água, a redução da rotação para 4 ou 5 anos, mantido o atual manejo silvicultural, segundo os maiores especialistas na área, geraria um impacto drástico nas microbacias que recebem essas plantações, agravando drasticamente a atual crise hídrica. A empresa não realizou esses estudos essenciais.
O potencial impacto na fauna de polinizadores (nativos e exóticos) também não foi devidamente estudado, levando em conta que o próprio estudo da empresa demonstra que o pólen do transgênico possui uma concentração muito maior do efeito da transgenia do que outros tecidos da planta, o que pode levar ao colapso das colmeias.
A produção e a exportação de mel no Brasil hoje são diretamente relacionadas ao cultivo do eucalipto, praticada principalmente por milhares de pequenos produtores que têm nessa atividade sua principal fonte de renda. São hoje cerca de 350 mil produtores de mel, sendo 80% deles orgânicos. Com a eventual liberação do eucalipto transgênico, e inevitável contaminação do mel, a exportação de mel orgânico será prejudicada pela não aceitação pelo mercado internacional.
Merece destaque o fato de que a empresa proponente já vem realizando a aplicação aérea de inseticidas no eucalipto, o que no caso dessa cultura arbórea, com cerca de 20 metros de copa, toma outra dimensão ambiental, que já vem afetando pequenos produtores vizinhos às áreas de monocultivo, principalmente na Bahia.
Também merece atenção o fato de que os estudos de campo, que deveriam dar base ao pedido de liberação comercial, em sua maior parte ainda não foram concluídos.
Mais estranho ainda seria o fato de que, em sendo importantes, tais estudos não precisem ser concluídos e isso seja aceito como normal, por membros da CTNBio.
Por último, cabe lembrar que o Brasil assumiu compromisso internacional de não liberar o plantio de arvores transgênicas antes de concluídos os estudos necessários, sobre sua segurança. Chama atenção que, além de não estudar organismos não-alvo, a Empresa não apresentou acompanhamento do ciclo completo destas árvores.
Na prática foram adotados protocolos válidos para o estudo de plantas anuais, como soja e milho, para examinar riscos associados a plantas perenes, que podem permanecer ativas no ambiente por meio século ou mais.


A posição do Greenpeace: Brasil avalia liberar eucalipto transgênico

Variedade desenvolvida pela FuturaGene / Suzano pode ser a primeira árvore transgênica plantada em todo mundo; estudos apresentados são insuficientes para garantir a segurança


O Greenpeace participou hoje da audiência pública sobre o eucalipto transgênico, realizada pela CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança). O encontro é parte do processo de liberação comercial da variedade de eucalipto geneticamente modificada da FuturaGene / Suzano Papel e Celulose, desenvolvida com o objetivo de produzir mais celulose em menos tempo.
A audiência contou com a participação de representantes das empresas envolvidas, membros da CTNBio, cientistas autônomos, representantes de Ministérios, apicultores e representantes de ONGs e movimentos sociais. Caso o pedido seja aprovado pela CTNBio, o Brasil será o primeiro país do mundo a plantar árvores transgênicas em escala comercial.
Se o uso indiscriminado de soja, milho e algodão transgênicos já é preocupante, o pedido de liberação comercial feito pela FuturaGene / Suzano polemiza a questão ainda mais. Árvores vivem por muito mais tempo e fazem parte de cadeias alimentares naturais e de ecossistemas complexos, e portanto representam ameaças ambientais de longo prazo para ecossistemas ricos em biodiversidade - ameaças que podem ser difíceis (se não impossíveis) de prever e avaliar. O escape de pólen ou semente de árvores de eucalipto geneticamente modificadas pode colocar em risco a vida natural.
    “Não é à toa que nenhum país do mundo tenha autorizado o plantio comercial de árvores transgênicas até hoje”, lembra Gabriela Vuolo, coordenadora da campanha de agricultura e alimentação do Greenpeace Brasil. “É importante que a CTNBio tenha realizado esta audiência pública, porque ficou ainda mais claro que a liberação desta variedade transgênica de eucalipto poderá trazer danos seríssimos para o meio ambiente, para a população e para a economia”, acrescenta ela.
    Durante a audiência, diversas intervenções pontuaram a insuficiência ou inadequação dos estudos apresentados pela FuturaGene / Suzano. Perguntada, a empresa declarou que não realizou, por exemplo, estudos específicos para comparar o consumo de água da variedade transgênica com a variedade convencional. Representante do Ministério do Meio Ambiente afirmou que não foram apresentados estudos de longa duração, e lembrou que os efeitos da soja e do milho transgênicos no médio e longo prazo não foram positivos. Destacou-se também que a Convenção de Biodiversidade, da qual o Brasil é signatário, recomenda cautela com relação a árvores geneticamente modificadas.
    O representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário alertou que os estudos realizados para avaliar os efeitos do eucalipto nas abelhas e na produção de mel são insatisfatórios, pois levaram em conta apenas cinco colmeias de uma única localidade. Cerca de 25% do mel produzido no Brasil vem do eucalipto, e a pesquisa apresentada pela FuturaGene / Suzano não avalia os aspectos nutricionais do mel produzido a partir de pólen trangênico, tampouco sua toxicidade ou alergenicidade.
    A Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (ABEMEL) se mostrou preocupada com a possível liberação: como não há aprovação desta variedade em nenhum outro lugar do mundo, as exportações brasileiras de mel e própolis poderão ser afetadas, numa situação semelhante à ocorrida no México em 2011.
    “Com base nos estudos apresentados, não dá pra dizer que o mel produzido a partir destes eucaliptos é seguro para consumo”, alerta Gabriela. E questiona: “O que vai acontecer com os 350 mil apicultores brasileiros que dependem da produção de mel para sobreviver? E a produção orgânica de mel, própolis, pólen e geleia real? Liberar o eucalipto transgênico sem estas respostas é uma temeridade, uma irresponsabilidade”.
    Selo FSC
    Outra preocupação levantada foi a de que os critérios do FSC (Forest Stewardship Council) não aceitam variedades transgênicas para certificação florestal. A Assembleia Geral do FSC se reúne na Espanha, na próxima semana, e a Campanha Internacional para Parar Árvores Geneticamente Modificadas (CSGET, na sigla em inglês) irá apresentar uma carta, pedindo que o FSC se desvincule da Suzano caso a liberação do eucalipto transgênico seja aprovada no Brasil.

    Preste a ser aprovado, eucalipto transgênico trará mais danos ambientais
    Segundo Paulo Kageyama, integrante da CTNBio, medida é apressada e visa apenas interesses empresariais.

    O Brasil é um dos maiores produtores de celulose do mundo: estima-se que mais de 5 milhões de hectares sejam destinados à plantação de florestas de eucaliptos, que em 2014 fez com que seus produtores lucrassem 600 dólares por tonelada, atividade das mais rentáveis do setor.

    Diversos especialistas chamam a atenção para os danos ambientais que o plantio dessa commoditie causa. A começar pela destruição de toda uma biodiversidade e a substituição por uma única espécie.
    Outro ponto são as enormes quantidades de agrotóxicos utilizados no plantio, responsáveis pela extinção de insetos e animais benéficos como borboletas, besouros, joaninhas, abelhas, anfíbios, tatus, etc. Um destes agrotóxicos mais utilizados nas plantações de eucaliptos é o sulfluramida, fortemente cancerígenos e proibido pela Convenção de Estocolmo, subscrita pelo Brasil e por mais de 152 países.
    Mesmo assim, no próximo dia 5 de março, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) colocará em pauta a votação que libera o cultivo de eucalipto transgênicos no Brasil.
    Para Paulo Kageyama, integrante da CTNBio e professor da Universidade de São Paulo, “esse projeto não traz benefícios à comunidade como um todo, nem a própria eucaliptocultura e aos produtores de mel. Muitas empresas do setor já reconheceram que essa é uma liberação prematura. A única grande interessada e justamente a única empresa beneficiada por esse processo é a FuturaGene/Suzano”, afirma.
    Confira abaixo a entrevista:
    Mesmo sem as certificações necessárias, o H421 (sigla científica do eucalipto transgênico) foi aprovado para comercialização. Sendo assim, quais os riscos que ele representa para a saúde humana e para o meio ambiente?
    O eucalipto transgênico tem várias falhas, mas a principal dela é a contaminação do mel. O Brasil é um grande produtor de mel de eucalipto.
    Alguns setores tentam minimizar essa contaminação, mas não sabemos qual o real impacto disso. Isso sem contar com o uso de agrotóxicos em larga escala nos monocultivos. De tão nocivos ao ambiente e fortemente cancerígenos são de uso proibido por organismos internacionais.
    Sem falar na destruição do solo, do bioma nativo, desvio de nascentes, abertura de estradas clandestinas para manuseio das árvores; todos esses fatores afetam diretamente a saúde humana.

    Então o que está por trás do debate que envolve a liberação do plantio dos eucaliptos transgênicos no Brasil?
    É a primeira vez que se aprova o eucalipto transgênico. Essa busca pela primazia do domínio é o que faz essa aprovação sair a qualquer custo, mesmo com todas as falhas apresentadas. A valorização da biotecnologia para domínio comercial de um produto transgênico que é único no mundo.
    Temos muitas criticas a esse processo tecnológico, que não traz benefícios à comunidade como um todo, à própria eucaliptocultura, aos produtores de mel e etc. Muitas empresas do setor já reconheceram que essa é uma liberação prematura. A única grande interessada e justamente a única empresa beneficiada por esse processo é a FuturaGene/Suzano.

    Hoje, 80% do mel brasileiro é certificado como orgânico. A liberação do eucalipto transgênico tende a interromper essa lógica. Qual o prejuízo que isso representa para o setor apicultores brasileiros?
    Os critérios do Forest Stewardship Council (FSC) não aceitam variedades transgênicas para certificação florestal. Só no ano passado, o Brasil produziu 16 mil toneladas de mel de eucalipto. A produção será contaminada após a liberação do transgênico.
    Alguns setores tentam minimizar essa contaminação, mas ainda não sabemos qual o real impacto disso. Mas já sabemos que isso representará um desastre para a apicultura brasileira.

    O Brasil é o principal consumidor de agrotóxicos do mundo. Há alguma relação entre os eucaliptos transgênicos e os agrotóxicos? De que maneira eles podem contribuir com o aumento do uso de venenos agrícolas?
    Em uma plantação de eucaliptos quase não se encontra biodiversidade. Não há sobrevida de insetos, animais.
    São usados em grande escala agrotóxicos à base de glifosato e de sulfluramida. Com o aumento em grande escala do monocultivo, mais o decréscimo no tempo de produção, o aumento na utilização de agrotóxicos é evidente.

    Ao plantar eucaliptos que utilizam esses agrotóxicos, o Brasil passa por cima da Convenção de Estocolmo. Vale lembrar que o texto foi aprovado pelo país em 2004. Isso não é um contrassenso?
    Sim, sem dúvida. O Brasil referendou o documento em 2004 e em 2006, na 8ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (Cop-8), que foi sediada Curitiba. O documento apresentado na época exigia análise de risco, regulamentação, entre outros pontos para comercialização.
    Caso essas exigências não fossem cumpridas, o projeto de aprovação do H421 ficaria como moratório. Não é o que estamos vendo acontecer. É uma posição, no mínimo, ambígua do Brasil.  
     
    Estima-se que, em média, cada árvore de eucalipto absorva cerca de 30 litros de água potável ao dia. Com a atual crise da água enfrentada pelo país, o que essa aprovação representa para o nosso sistema hídrico defasado?
    O principal especialista da Esalq afirmou pessoalmente que o maior consumo de água acontece nos primeiros quatro anos de plantio.
    O eucalipto transgênico tem o seu processo de crescimento encurtado. Ou seja, entre o plantio e a colheita é quando ocorre o maior consumo de água pela árvore.
    Com a crise hídrica que enfrentamos não só no Brasil, mas no mundo, é um erro, um contrassenso a liberação da comercialização do eucalipto transgênico.