terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Fábricas de filhotes

Eu adotei 3 cães, 3 viralatas fêmeas, hoje castradas e microchipadas. Claro que gosto de cães, já tive outros antes quando morava com minha família, apenas 1 viralata. Mas em adulta e morando sozinha, decidi que os cães da minha casa seriam adotados de abrigos.

O problema em todo comércio de animais é sempre o mesmo: vira mercadoria e, uma vez dando lucro, os fins justificam todos os meios.
Coloque-se no lugar do criador: você tem 2 ou 3 casais de cães, ou 3 fêmeas e um macho que seja, quando nasce a primeira ninhada (independente de ter pedigree ou não), todos os filhotes são vendidos - seja no Mercado Livre, seja na pet shop ou mesmo numa feira de subúrbio, mas todos saem como água. O que você faz, espera as fêmeas terem seu tempo de resguardo, dando quem sabe mais alguns meses antes da próxima cruza, ou no primeiro cio, libera o macho para cruzar?
A segunda opção prevalece sempre.

As fêmeas não têm vida, são máquinas de produzir filhotes e vão parir até morrer, geralmente de hemorragia. Caso esse macho disponível não as fecunde, os próprios filhotes podem fecundar suas mães biológicas, o que leva a ninhadas com maiores chances de doenças congênitas e psicopatias.
Aliás, se uma fêmea não pode escolher seu parceiro e é forçada à relação sexual, isso também é estupro, mesmo em animais.

Os filhotes que não forem vendidos por qualquer razão, deformidades ou simples encalhe, serão mortos ou abandonados, afinal são um estoque indesejado que gera custo ao longo dos próximos 15 anos.
Caso esses filhotes encalhados sejam fêmeas, servirão para continuar parindo até morrer mais filhotinhos para serem vendidos.

Criadores certificados e com garantia de pedigree também adotam práticas cruéis e fazem um desfavor à sociedade, afinal para cada cão de raça vendido, 1 viralata a menos é adotado nos abrigos.
Pior, se esse cão de raça comprado cruzar, suas crias (que podem ou não ter o famigerado pedigree) levarão a 80.000.000 filhotes indiretos na próxima década.

A partir do momento que você decide adotar um cão do abrigo superlotado, ou retirá-lo da rua, você diz não ao criador, interrompe esse ciclo perverso e insustentável, abre vaga para outros cães abandonados no mesmo abrigo e a longo prazo, serão menos cães nas ruas e abrigos. Já existem mais cães do que pessoas no mundo e não há lares para todos.

Em tempo, reveja também essa questão da raça do animal e certificados de procedência, todo cão descende do mesmo ancestral comum, o lobo. Atente que em 1800, havia somente 20 raças de cães. Durante a 1ª Guerra Mundial já eram 70 e hoje são cerca de 400 raças diferentes. Em 100 anos, reduzimos o cérebro do buldogue, encurtamos as patas do salsicha e turbinamos as orelhas do bassê. Essas mudanças deixaram sequelas: um em cada quatro cães sofre de alguma doença genética e eles têm mais câncer do que os humanos. Nós criamos essas raças por vaidade, como um resquício nazista numa sociedade supostamente perfeita do ponto de vista genético.

Leia melhor o artigo abaixo, Fábricas de filhotes, e entenda porque não somos o topo de uma pirâmide, mas estamos todos interligados como Terráqueos. Esse raciocínio tem que começar a ser reproduzido nas demais esferas onde achamos muito natural a presença de animais não nativos, como circos, shows de orcas e golfinhos, hipismo, zoológicos e passeios de camelos em praias tropicais. Todos esses animais estão sendo capturados e confinados à força em condições cruéis e insalubres por mera vaidade humana.




Fábricas de filhotes

As “Fábricas de filhotes” são lugares destinados à reprodução para o comércio de animais em massa, estando o lucro em um patamar mais elevado que o bem estar do animal em questão. Os animais procriadores vivem em terríveis condições. Geralmente passam a vida em gaiolas pequenas e sujas, sem contato com pessoas. Passam fome, não recebem atendimento veterinário e são vistos como coisas, vivendo em situação deplorável. As fêmeas procriam a cada cio e quando não conseguem mais atender a demanda são descartadas como lixo, e outro animal é colocado em seu lugar. Tenho uma prova viva disso em casa. Há anos atrás resgatei, de uma criadora, uma cadela que seria descartada por não estar mais procriando e estava atrapalhando a produção dessa fábrica. É inacreditável, mas é uma realidade.
A venda de animais por si só, seja ela em pet shops ou canis/gatis, transforma animais em mercadoria, em objeto negociável. Não apenas cães e gatos, mas quaisquer animal merece ser tratado como um ser senciente, e não como fonte de lucro.
Uma “fábrica de filhotes” pode começar bem perto de você, com um amigo ou vizinho que esteja “precisando” de dinheiro e então usa uma cadela para acasalar em todo cio. É claro que ele não tem condição e nem interesse em levá-la no veterinário para ver como estão as condições da mesma, e então os filhotes começam a carregar uma ou mais doenças hereditárias, ou seja, além de prejudicar a fêmea que está parindo sem descanso e cuidados médicos, ainda os filhotes sofrem com problemas de saúde ao longo de sua vida.
Alguns motivos para NÂO comprar animais
Péssima saúde: devido ao fato da maioria dos cães vir de fábricas de filhotes (e donos sem experiência alguma que resolvem cruzar seus cães em casa), esses filhotes não são o resultado de uma criação cuidadosa e normalmente eles não são bem cuidados antes de irem para a venda. Alguns dos problemas mais comuns são problemas neurológicos, oculares, de pele, sanguíneos e parvovirose.
Nenhuma socialização: os filhotes que são vendidos em pet shops e nas ruas das cidades ou mesmo os filhotes de criadores leigos, são desmamados muito cedo, às vezes até com 1 mês de idade. Um cão deve ficar com a mãe até os 90 dias, nunca menos de 70 dias. Tirar um cachorro da ninhada com menos de 70 dias significa que ele não vai aprender com a mãe e com os irmãos o básico do comportamento canino.
Vendas nas ruas das cidades
Em diversas cidades pelo país a prática de vender animais nas ruas aumenta a cada dia, cães e gatos ficam expostos ao calor em minúsculas caixas e até mesmo dentro de sacolas. Leis estaduais proíbem a venda em logradouros públicos, mas ainda falta fiscalização. Recentemente na cidade de Niterói, estado do Rio de Janeiro, uma ação da Secretaria de Meio Ambiente em conjunto com Polícia Civil acabou com essa prática que já durava há anos em um ponto da cidade, que já era um “shopping” a céu aberto de venda de animais.
Se você deseja um animal, a atitude ideal é procurar um abrigo de animais abandonados ou uma campanha de adoção. Lá você encontrará vários cães carentes e doidos para ter um lar. Em várias cidades do país podemos encontra esses abrigos e essas campanhas. Em Niterói a Secretaria de Meio Ambiente promove a campanha de adoção “Adotar é o Bicho” no segundo domingo do mês no Campo de São Bento e no terceiro domingo do mês no MAC. Em Maricá acontece todo primeiro sábado do mês, na praça Orlando de Barros Pimentel, no Centro da cidade, a campanha de adoção “Adotar é Legal, porque Amigo não se compra”.




2 filmes obrigatórios sobre o assunto:
A verdade sobre as fazendas de cachorrinhos para compra e venda, Puppy Mill  (narrado e apresentado por Charlize Theron).
Gostou do Puppy Mill? Então assista à Segredos do Pedigree



Leia outras notícias no site da ANDA sobre a real situação do comércio de animais:
Mulher é flagrada negociando animais no Paraná
Cães em “fábrica de filhotes” são vítimas de doenças contagiosas
Operação resgata mais de 30 animais de cativeiro em Minas Gerais
Sequestros de cachorros passam a ser mais frequentes no Brasil
Operação fecha canil clandestino com quase cem animais em Curitiba
Cães são resgatados em condições deploráveis dentro da casa de criador
Petição contra fazendas de reprodução em massa de cães tem 100 mil assinaturas



Os cães daqui de casa e suas histórias de adoção:
Olimpia
Margarida 
Pipa


Mais informação aqui no blog:
Zoológicos x Reservas
Circo Legal não tem animal
Como funcionam testes em animais
Porque castrar seu animal de estimação
Odeio Rodeio: fonte de muito sofrimento e prejuízo aos cofres públicos
Férias de Verão em Natal (RN): Vamos passear de camelo em Genipabu? Não, obrigada!
Neurocientistas de todo mundo assinam manifesto reconhecendo consciência em animais

sábado, 18 de janeiro de 2014

Como funciona a mineração no Brasil

Já foi dito por aqui algumas milhares de vezes que não existe mineração sustentável, que um celular consome metade dos elementos de uma tabela periódica e que 80% do ouro e 99% dos diamantes extraídos são demandas do mercado de jóias supérfluas. Mas talvez as imagens em fotos e filmes abaixo, crédito total da Mídia Ninja, finalmente te convençam. 


Especial Mineração no Brasil • Mídia NINJA - Quem paga o preço da Mineração?

O Brasil é o segundo maior exportador de minério do planeta. 
Em 2012, 52 bilhões de litros de água foram consumidos pela mineração. Essa quantidade daria para abastecer a cidade de Niterói por 2 anos. 
Um novo marco regulatório da mineração está para ser lançado. O futuro sustentável do Brasil está em jogo.





Tanto bate até que sangra


Agora o nó da vez é o Novo Código de Mineração Brasileiro, que está para ser votado e é outro assunto complexo que coloca movimentos sociais de um lado e poderosos interesses financeiros do outro.
Em termos gerais o que está prestes a ser aprovado é um código que mantém as coisas como antes (as mineradoras fazem o que bem entendem e passam por cima de todos), mas com o governo federal ganhando mais dinheiro com isso.
Bem, se existe muita grana em jogo, a batalha é obviamente desigual. Ainda mais quando parte do Congresso tem ligações íntimas com mineradoras. Por exemplo, o relator do Novo Código de Mineração é o deputado federal Leonardo Quintão (PMDB-MG) e 20% de sua campanha partiu das mineradoras. Quintão é próximo a Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que teve 70% de sua campanha financiada por empresas ligadas ao setor e, por outro lado, é o principal amigo das teles na questão do Marco Civil. Tutti buona gente, sacumé?
Já o senador Edison Lobão Filho (PMDB-MA), membro não-oficial da Frente Parlamentar da Mineração Brasileira, é dono de uma empresa de mineração (Vale do Sol) e filho, como o próprio nome sugere, de Edison Lobão, simplesmente o ministro das Minas e Energia. Outro senador, Romero Jucá (PMDB-RR), é autor de um projeto de lei que autoriza mineração em terras indígenas e é acusado pela Procuradoria Geral da República de beneficiar a Vale S/A, a maior mineradora do Brasil e a segunda do mundo. Seu caso está no STF. Esses e outros parlamentares são citados na excelente reportagem “Teia de interesses liga políticos a mineradoras em debate sobre novo código”, de Alceu Luís Castilho para a Agência Pública.
A Vale S/A, aliás, é a principal protagonista e vilã de Enquanto o Trem Não Passa, impressionante curta documental feito pela Mídia Ninja que dá voz aos atingidos pela devastação causada pela predadora indústria mineradora nos estados do Maranhão, Pará e Minas Gerais. Saca só.
É impressionante a estupidez dessa turma que destrói a vida de milhares de pessoas e nossos próprios recursos hídrico-minerais em troca do, perdoem o trocadilho, vil metal. Em entrevista ao Blog do Planeta, o advogado Márcio Pereira, especialista em legislação ambiental, toca justamente na perigosa lacuna do Novo Código de Mineração que manterá esse faroeste: “Em termos ambientais, o governo não avançou nada. Não estabeleceu nenhuma regra específica para a área de mineração, sendo que hoje um dos principais gargalos da área de mineração é a questão ambiental. O minério pode estar em áreas remotas, em áreas sensíveis do ponto de vista ecológico ou social”.
Tenho certeza que nenhum ativista e nem as muitas populações afetadas por essas obras gigantescas (e potencialmente nocivas em termos sócio-ambientais), muito menos este que vos escreve, sejam contra o tal “progresso”. Mas que ele seja para as pessoas e não para alguns políticos e empresas (e quando digo “empresas” quero dizer “donos e acionistas de empresas” porque trabalhadores nunca levam nenhuma fatia desse bolo). E que essa importante fonte de riqueza nacional seja extraída de forma responsável. Não é difícil fazer a coisa certa, basta querer e pressionar para que isso aconteça. O que não dá mais é para deixar lobões, lobos e lobinhos cuidando desse nosso belo e confuso galinheiro.
p.s.: Para saber quem mais está de rabo preso com as mineradoras – que só perdem para as construtoras entre as empresas que mais doam dinheiro para campanhas – é bom dar uma olhada no estudo “Quem é quem nas discussões do Novo Código de Mineração”, de Clarissa Reis Oliveira, pesquisadora do Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas).



Enquanto o trem não passa

Prestes a ser votado o Novo Código de Mineração Brasileiro, a Mídia Ninja une-se aos movimentos sociais para dar voz aos atingidos pelos impactos e devastação da mineração, atividade econômica que cresceu 550% nos últimos 10 anos no país. O documentário foi gravado em três estados impactados pela atividade, ao longo dos últimos 2 meses: Maranhão, Pará e Minas Gerais.

"Enquanto o trem não passa" mostra um pouco da realidade de comunidades que têm seus direitos usurpados por grandes mineradoras e governo. Municípios cortados pela Ferrovia Carajás, Minerodutos, populações afetadas - não apenas pela tormenta de explosões constantes na extração do minério, mas também por toda a logística que muda o modo de viver e conviver nos territórios.

O objetivo da produção é alertar quem vive fora das áreas de atuação das mineradoras sobre o enorme impacto dessa atividade e o quanto o novo código proposto pelo Governo não traz salvaguardas sócio-ambientais, garantias ao meio ambiente e nem segurança aos quilombolas e povos indígenas. Os brasileiros sofrerão, ao longo das próximas décadas, com a escassez de água, pois rios e nascentes estão sendo drenados pelas mineradoras. Só em 2012 a mineração consumiu 52 bilhões de litros de água, o suficiente para abastecer por dois anos a cidade de Niterói (RJ).







Ensaio fotográfico de Rudi Böhm, realizado em 1981

No final dos anos setenta, na pequena cidade de Curionópolis, interior do Pará, um vaqueiro encontra uma pepita de ouro. A notícia, rápida e ferozmente, se espalha por toda a região. Começa aí a caçada ao El Dorado. Mais de 80 mil homens com altíssimas expectativas e vindos das mais diversas partes do país chegam à Serra Pelada. Inicia-se assim a história da maior mineração de ouro do planeta.

Morros se tornam desfiladeiros prontos para terem suas pepitas exploradas. Imagens do formigueiro humano, subindo e descendo por aqueles morros - incessantemente, com pesados sacos nas costas, chocam o mundo. Poucos tiveram a sorte de encontrar quantidades significativas do vil metal, e os que conseguiram alguma pepita com maior valor, ficaram com um percentual mínimo do que encontraram. A maior parte ficava para os donos de fazenda. Serra Pelada é uma ferida ainda aberta. O rastro de destruição e ganância impactam até hoje a pequena cidade onde a serra fica cada dia mais nua; mais envergonhada. 

Embora tenha sido extraído de suas entranhas mais de 40 toneladas de Ouro, isso não tornou-se pão para os 6,5 mil moradores de Curionópolis. Toda essa riqueza deixou uma trilha de catástrofe ambiental e social. A cidade tem um dos menores IDHs do país, que pode ser observado em alguns dados: 70% de seus moradores são analfabetos. Em recente campanha de saúde, foi constatado que de 96 pessoas examinadas, 45 eram portadoras do vírus HIV.

A ambição vampiresca de grandes mineradoras e do próprio Governo - sedento por royalties - autoriza, à partir desse ano, a reabertura de Serra Pelada para a exploração. Uma empresa Canadense, a Colossus Minerals, está na linha de frente da empreitada. 

A reabertura é um símbolo claro do boom minerador que vive nosso país. O Brasil pretente triplicar a atividade da mineração até 2030, não importando-se em salvaguardar meio ambiente, trabalhadores, populações, águas ou territórios. São três vezes mais crimes contra a terra. Mortes elevadas ao cubo.

Dessa vez o formigueiro será substituído por grandes e modernas máquinas, que, para extrair as 33 toneladas de Ouro que ainda restam, dissecarão quase 5 milhões de toneladas de outros materiais. Para isso será necessária abertura de uma nova cratera de 450 metros de profundidade numa área de mil hectares. Toda essa operação gerará menos de 500 empregos em um período de dez anos. 

Quando a mineração acabar novamente, teremos rios e lagos contaminados por mercúrio e cianeto - substâncias altamente tóxicas utilizadas na mineração do Ouro. A história de pobreza e sofrimento da população será contada novamente. Não é conto de fadas. É o roteiro do caos, real.

Fica a questão: Estamos curados, mas arriados em sequelas. Vamos realmente reabrir essa ferida? Que os moradores da região sejam bons de oração, ou de guerra. O céu e o inferno estão voltando para Serra Pelada.















A Mineração para quem vê de perto

Da terra do Açaí à terra dos profetas de Alejadinho. Percorremos o Brasil nos trilhos que escoam o minério e conhecemos as histórias de quem vive o dia a dia dos milhões que correm nos bancos e bolsos dos empresários. 

Foram 21 dias, mais de 4 mil kilômetros, 3 estados, mais de 100 horas de gravação e muitas histórias. Descobrir os miúdos da mineração vai além do que se pode imaginar. Não são só as gigantescas cavas e explorações em grande escala, é a vida de cada um que convive diariamente com os resquícios dessa atividade que afeta milhares de pessoas. Do seu Zé Pepino que não tem mais água em seu terreno devido à contaminação do rio com dejetos da mineração, à Gilmar, militante da área rural que durante dois anos percorreu a casa de mais de 2 mil famílias para convencê-los a não permitir a entrada da Ferrous na região onde mora. As experiências no Brasil profundo nos levaram a conhecer personagens, cidades e realidades nos âmagos do país. 

Veja um pouco do que foi a produção do documentário e a equipe que rodou para conhecer e mostrar essas histórias:











No cinema (agora, nas locadoras e no horário nobre da Globo), Serra Pelada, a maior força de trabalho humana desde as pirâmides do Egito. Mas no Egito, deixaram construções que seriam os monumentos da Antiguidade, aqui abriu-se um buraco a céu aberto sem qualquer critério.








Para o famoso ensaio de Sebastião Salgado sobre Serra Pelada, algumas fotos estão na postagem: Jóias são insustentáveis: Serra Pelada e os Diamantes de sangue




Mais informação:
Urucu, o petróleo da Amazônia
Extração de gás em Nova Mutum
A Revolução dos Cocos (imperdível)
Como funciona um programa de compensação ambiental
Jóias são insustentáveis: Serra Pelada e os Diamantes de sangue
Metais em risco de extinção - meia tabela periódica em cada aparelho celular
A mineração de ouro a céu aberto é a mineração dos ossos no maior envenenamento em massa do Brasil
A saga da construção do maior mineroduto do mundo que desperdiça 2,5 milhões de litros de água por hora


Aproveitamento do pneu na construção civil

Quem acompanha sabe que a reciclagem artesanal não é bem vinda por aqui, há muitas postagens sobre o assunto e pneus são justamente um dos exemplos mais emblemáticos, já que quase tudo artesanal em pneu, é medonho. Pneu não é algo bonito, recapeado então menos ainda, sejamos realistas.

Existem muitas formas de reciclar pneus, sem precisar fazer dos mesmo alegorias de jardim. Asfalto de polímero por exemplo é uma forma de reciclar pneus derretidos. A Permacultura também é pródiga em apresentar soluções inteligentes em bioconstrução que reaproveitam os pneus sem comprometer a estética da edificação.

Antes que alguém reclame que não dá para recapear tantos pneus, que nem todos os municípios brasileiros têm aterros, que a logística reversa não atende à demanda, minha resposta é uma só:
Então precisa de transporte coletivo melhor para ter menos carros de passeio e com isso menos pneus sendo descartados. País desenvolvido não é aquele onde a classe C pode comprar um seminovo, mas onde há transporte público de qualidade de Norte a Sul para todos.
Se chegamos ao ponto de transformar pneus em matéria prima é porque a solução não é mais a reciclagem, mas mudar o trânsito, afinal já existe mais de 1 bilhão de carros no mundo.

Para lembrar sempre: O Brasil é o único país do mundo que transporta ferro e aço em caçamba de caminhão. Nossos caminhoneiros, ou carreteiros, trabalham por empreitada, sem carteira assinada, aposentadoria ou plano de saúde. Dobram jornadas, a base de estimulante, em estradas esburacadas e veículos muitas vezes não vistoriados.


Estatística oficial: 

O Brasil descarta anualmente em média 30 milhões de pneus usados que, além de serem fabricados a partir da borracha (polímero oriundo de prospecção de petróleo), deixam um passivo ambiental caro. As estimativas chegam a 600 anos até ele virar pó. Além disso, quando queimado ao ar livre, o pneu solta uma fedorenta fumaça negra, que obviamente é poluente. No leito dos rios, eles atrapalham o fluxo natural das águas. E jogar pneu fora, em qualquer lugar, depois de recauchutá-lo várias vezes, parece ser uma prática indiscriminada. Apesar de não haver um dado oficial ou sistematicamente pesquisado, as estimativas são de 30 milhões de pneus jogados por ano. De qualquer modo,somente na limpeza do rio Tietê, entre 2002 e 2006, 120 mil pneus foram encontrados jogados nas águas poluídas do rio paulista. Aliás, os pneus cheios de água foram considerados os grandes demônios da época da dengue.







Aproveitamento do pneu na construção civil


Apresentamos variadas formas de utilização do pneu em processos envolvidos na construção civil, citando o baixo custo, aplicabilidade e criatividade!
Galeria pluvial
Uma economia de R$ 54 mil foi possível com a utilização de pneus reciclados de caminhão na construção de uma galeria para escoamento de águas de chuva na avenida Juscelino Kubitschek e residencial Alvorada, em Araçoiaba da Serra. A Prefeitura empregou na obra o novo sistema, desenvolvido pela Secretaria Municipal de Obras, Agricultura e Meio Ambiente. As cintas metálicas dos pneus substituiriam tubos de concreto normalmente usados para a construção de galerias deste tipo, que estavam orçados em R$ 72 mil. Com o material reciclado, o custo caiu para R$ 18 mil, o que correspondeu a uma economia de R$ 54 mil, segundo a Prefeitura. As galerias têm uma extensão de oitocentos metros e foram concluídas em agosto. Parte dos pneus usados foi doada por uma empresa que trabalha com materiais recicláveis. Segundo o prefeito, "além de contribuir com a preservação do meio ambiente, os tubos de borracha são mais resistentes ao tempo do que os de cimento".

O secretário Municipal de Obras, Agricultura e Meio Ambiente, explica que a técnica utilizada foi o uso de cintas metálicas unidas em tubos de um metro, por pressão. A própria terra em volta também comprime as cintas. Conforme testes, o material tem resistência para suportar o peso da terra e da pavimentação, por cima. O material alternativo poderá ser empregado na construção de outras galerias no município, diz o secretário, sendo uma solução econômica e ao mesmo tempo de interesse ambiental, pois garante o aproveitamento de pneus usados, que descartados na natureza, sem reciclagem, tornam-se um problema. Na região, outro exemplo de emprego de pneus usados em obras é em Porto Feliz. A Prefeitura utilizou-os na contenção das margens do córrego Pinheirinho, que atravessa a área urbana. De acordo com o secretário de Araçoiaba, há estudo para o aproveitamento do mesmo material em galerias de maior diâmetro. Para isso, seriam necessários pneus de tratores. 
Pneus no uso do asfalto
Asfalto enriquecido com borracha da reciclagem de pneus usados - o asfalto borracha - é a mais nova experiência visando à conservação das estradas . A reutilização dos pneus, além de reduzir os custos de manutenção das rodovias, contribuirá para a preservação ambiental. O trabalho vem sendo executado pelo Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (DAER) do Rio Grande do Sul. O Secretário dos Transportes, o início dos testes foi no quilômetro 28 da RS/122 (junto ao Posto da Polícia Rodoviária Estadual de Bom Princípio). 

Na Prefeitura Municipal de Bom Princípio Pela primeira vez no Brasil será utilizado um equipamento especial: um veículo pesando 50 toneladas e medindo 25 metros de comprimento simulará o tráfego (simulador móvel de tráfego) numa rodovia. Os testes usualmente realizados utilizam pistas-testes e não estradas normais. Para permitir a comparação do asfalto-borracha com a massa asfáltica (CBUQ), o simulador será aplicado sobre os dois tipos de pavimentos. Depois da aplicação, os técnicos continuarão acompanhando a reação da pista com o fluxo normal do tráfego na rodovia. A nova tecnologia reduzirá os custos de manutenção e aumentará a vida útil das estradas e vai se constituir numa alternativa para o uso dos pneus usados, a exemplo do que já vem ocorrendo na Europa e nos Estados Unidos. O primeiro simulador de tráfego brasileiro foi desenvolvido e construído pela CMI-Cifali. O produto é um composto de asfalto de petróleo e borracha de pneu. Ao ser misturado com o agregado pétreo (Petróleo), dá origem à mistura asfáltica, comumente denominada de asfalto. No Brasil, sua primeira aplicação ocorreu em agosto de 2001, na Rodovia BR 116, no trecho Guaíba/Camaquã - RS. 
 
Construção de Edificações - parede de pneus
Nas montanhas altas e frias do Chile alguns residentes acharam um meio de construir uma casa que é barata, confortável e muito chique. O material de construção usado foi: pedra local (prontamente disponível), pneus reciclados (também prontamente disponíveis e grátis), vigas de madeira e uma quantia pequena de cimento. 

Sendo feita de material reciclado a construção de paredes com pneus reciclados é ideal para pessoas que têm acesso a poucos recursos, mas podem dispor de mais tempo para construir a própria casa. Para pessoas com menos tempo disponível, com mais recursos e contato com um arquiteto aberto e criativo, a casa pode ter um resultado muito interessante. 



Baixo custo - sendo feita essencialmente de terra e material que normalmente será jogado fora, a estrutura principal da casa será eficiente e de baixo custo. Entretanto, o método exigirá trabalho intensivo. Uma solução ideal para comunidades com baixo acesso de recursos; uma casa de qualidade com quase nenhum custo. 
Alta Massa Térmica - quando combinado com outros componentes passivos do projeto, como sistemas de ventilação, o resultado será uma casa com um ambiente agradável e confortável. Com estes materiais e um bom desenho, não será necessário o uso de ar condicionado o que significa menos uso de energia. 
Estruturalmente Forte e Flexível - as paredes grossas são compostas de pneus enchidos com terra e socadas até que os pneus comecem a se deformar. Camadas subsequentes moldam esta deformação, formando um cadeado mecânico poderoso. O peso das paredes criará uma estrutura forte e estável. Com este método de construção, paredes circulares ou curvas serão tão fáceis de construir quanto paredes retas. 

As paredes têm muito contato com a terra devido a sua largura. Se a terra local for basicamente estável, não será necessária a utilização de fundações de concreto. As filas iniciais de pneus podem ser colocadas diretamente na terra. Cada pneu será enchido com terra e esta será compactada dentro de toda cavidade do pneu. Este enchimento continuará até os pneus começarem a se deformar e se expandir. 

Os pneus das filas de cima serão cheios até se deformarem e se encaixarem uns nos outros, criando uma ligação mecânica forte dentro das camadas subsequentes. Para criar uma superfície mais lisa e evitar o consumo excessivo de massa no enchimento das lacunas entre os pneus, estes espaços poderão ser preenchidos com latas de alumínio e barro. Uma camada final de gesso pode produzir uma superfície lisa e limpa. 




Quem bioconstrói reutilizando pneus e arrasa: 
Michael Reynolds, Garbage Warrior: a bioarquitetura do Novo México



Mais informação:

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Águas vivas - Como agir em caso de acidente



Por Marcelo Szpilman, biólogo e fundador do Instituto Aqualung

Acredito ser importante esclarecer algumas notícias e informações que estão sendo divulgadas sobre os supostos "Ataques de águas-vivas".

Em primeiro lugar, águas-vivas e caravelas não "atacam" as pessoas. São animais que vagam pelos mares ao sabor das correntes e ocasionalmente podem provocar acidentes quando os banhistas se aproximam e, inadvertidamente, chocam-se contra esses seres. Se pudessem, eles evitariam tal contato.

O verão é uma época natural de reprodução desses animais. Com esse objetivo, eles formam grandes agregações onde machos e fêmeas se encontram. Ocasionalmente, uma corrente marinha pode levar esses animais a se aproximarem mais do litoral e o aumento da interação com homem pode provocar um correspondente aumento no número de acidentes.
Está em moda hoje culpar o "Aquecimento Global" por alguns eventos da natureza, porém não há evidências científicas que comprovem tal relação, incluindo o suposto aumento nas ocorrências de águas-vivas e caravelas no litoral brasileiro.

A meu ver, o que está ocorrendo não é simplesmente um aumento no número de casos, mas sim um aumento considerável no número de relatos de casos de acidentes com esses seres marinhos. Como a imensa maioria dos casos no Brasil são brandos (a vítima trata do ferimento em casa), ainda que todos os verões ocorram centenas de acidentes, os mesmos não costumam ser relatados.

Agora, neste verão, que apenas está começando, mesmo que se possa considerar um aumento real no número de casos, o que seria absolutamente normal, as primeiras reportagens e relatos incentivaram novas reportagens e novos relatos, provocando um efeito em cascata retroalimentado pela mídia e pela extraordinária (e relativamente nova) propagação da informação pela internet.

A fim de esclarecer os fatos e transmitir informações corretas sobre esses animais e sobre como agir em caso de acidente, segue abaixo um texto tirado do meu livro Seres Marinhos Perigosos.

Celenterados

Pertencem ao filo Cnidaria, que reúne os animais mais inferiores com tecido e cavidade digestiva definidos. Este ramo abrange as classes Hydrozoa (hidróides, plumas-do-mar, falsos corais urticantes, medusas e caravelas), Scyphozoa (cifomedusas - águas-vivas) e Anthozoa (anêmonas-do-mar e corais).

Os indivíduos podem ser solitários ou coloniais e apresentar duas formas em seu ciclo vital. O pólipo, com corpo tubular onde a extremidade inferior é fechada e fixa e a superior apresenta uma boca central circundada por tentáculos moles, e a medusa, com corpo gelatinoso em forma de guarda-chuva ou sino, marginado por tentáculos, boca na superfície côncava inferior e natação livre Dependem, em grande parte, das correntes, ventos e marés para se locomover. No entanto, essas duas formas podem apresentar-se modificadas e, ambas, podem aparecer no ciclo reprodutivo de várias espécies.

O aparelho inoculador de peçonha é constituído de uma bateria de células denominadas nematocistos. Cada nematocisto consiste de uma diminuta cápsula arredondada, preenchida de líquido, contendo um fio tubular enrolado que pode ser projetado para fora. Embora possam ocorrer em quase toda a epiderme do animal, são mais abundantes nos tentáculos. Existem quatro tipos diferentes de nematocistos. Dois deles produzem uma substância pegajosa e são usados na locomoção e apreensão de alimentos, não apresentando perigo para o homem.

Os outros dois, chamados penetrante e envolvente, são usados em conjunto para capturar suas presas e apresentam um líquido peçonhento que pode provocar grande irritação (urticária) e intensa sensação de queimadura, além de ser um potente agente paralisante do sistema nervoso. Análises recentes revelaram, na peçonha, a presença de uma complexa mistura de toxinas (hipnotoxinas, neurotoxinas, cardiotoxinas e palytoxinas) e/ou enzimas antigênicas, como o hidróxido de tetra-metil-amônio, a serotonina, a histamina e outras substâncias ainda não definidas.

O tipo penetrante tem um longo tubo filiforme enrolado transversalmente. Na descarga, esse tubo explode para fora, disparando um microaguilhão que perfura a pele e inocula a peçonha. Essa descarga é extremamente rápida (ocorre em apenas 3 milisegundos) e possui grande velocidade, atingindo a inacreditável força de aceleração de 40 mil G, que capacita o microaguilão a penetrar até na carapaça de um caranguejo. O tipo envolvente contém um fio curto e espesso enrolado. Na descarga, ele se enrola fortemente em torno dos pêlos da pele. Ao coçarmos a pele, devido a ação da peçonha já inoculada pelo nematocisto penetrante, estouramos uma pequena bolsa que ele carrega e inoculamos involuntariamente ainda mais peçonha.

O sistema de descarga é ativado através de reações involuntárias (estímulos químicos ou físicos). Por isso, mesmo após a morte do animal, os nematocistos podem ser ativados.

Águas-vivas (Cifomedusas)

Possuem os sexos separados e sua geração polipóide é diminuta ou ausente. Apresentam o corpo gelatinoso, em forma de sino cúbico (cubomedusas) ou guarda-chuva (discomedusas), com pequenos tentáculos delicados e marginais. Sua boca, no centro da superfície côncava inferior, é circundada por tentáculos orais contendo numerosos nematocistos.

Vivem nos mares tropicais e subtropicais, nas águas pelágicas e costeiras. São comuns nas praias pelo fato de preferirem as águas com fundo arenoso e os estuários dos rios. Podem ocorrer isoladamente ou em grandes grupos, principalmente nos ciclos sazonais de procriação, em áreas que são, em geral, conhecidas pelos habitantes locais e evitadas por motivos óbvios. Flutuam calmamente na superfície ou a meia-água, porém, nas horas mais quentes do dia, migram para as águas mais profundas. Apesar de poderem se deslocar por contrações rítmicas, estão, em grande parte, à mercê das correntes e ondas. Durante as tempestades e ressacas, um grande número delas costuma ser lançado nas praias.

Seu alimento, peixes e pequenos invertebrados, é capturado e paralisado pelos nematocistos dos tentáculos orais e conduzido para a boca. São exatamente esses tentáculos orais que provocam acidentes com o homem.
Todas as águas-vivas são capazes de infligir algum dano, porém apenas algumas espécies são realmente perigosas e podem provocar lesões muito dolorosas e sérias. Em nosso litoral, são mais comuns as discomedusas dos gêneros Aurelia e Chrysaora, que podem provocar urticária, pequenas lesões e dermatites dolorosas.

As mais perigosas, no entanto, capazes de infligir desde lesões moderadas (dor pulsátil ou latejante, porém raramente causando inconsciência) a lesões severas (dor intensa que pode levar à perda da consciência e ao afogamento), são as cubomedusas dos gêneros Carybdea e Chiropsalmus. Este último, pertence à ordem Chirodropidae, que abriga as águas-vivas consideradas as mais peçonhentas criaturas do planeta. Denominadas vulgarmente de vespas-do-mar, podem, em um processo rápido, provocar, além de erupções e dor lancinante, falência circulatória, paralisia respiratória e morte.

No Brasil, os acidentes mais graves são provocados pela Chiropsalmus quadrumanus. Os acidentes com a espécie Carybdea alata costumam ser menos perigosos. Apesar de não ocorrerem em nossa costa, e sim no Pacífico, vale citar dois outros gêneros muito perigosos e interessantes. As discomedusas do gênero Cyanea, que podem atingir mais de 2 metros de diâmetro, com tentáculos muitas vezes maiores do que 30 metros de comprimento, e as cubomedusas do gênero Chironex (vespa-do-mar), que são consideradas as águas-vivas mais mortais do mundo, as mais peçonhentas de todas as criaturas marinhas. São responsáveis por numerosas fatalidades na costa da Austrália. A morte pode ocorrer em poucos minutos, decorrente dos colapsos circulatório e respiratório. Seu tamanho, entretanto, não costuma passar dos 20 centímetros de diâmetro, enquanto seus tentáculos alcançam no máximo 3 metros de comprimento (estima-se que um animal adulto possa ter cerca de 4 bilhões de nematocistos em seus tentáculos).

Caravelas (Sifonóforos)

A caravela-portuguesa, como também é chamada, é uma colônia flutuante formada por pelo menos quatro pólipos polimórficos vivendo em perfeita simbiose. O pólipo flutuador ou pneumatóforo, que secreta gás para tornar a colônia flutuante, os pólipos nutritivos, que digerem o alimento, os pólipos reprodutores e os pólipos defensivos ou pescadores, que apresentam longos tentáculos com muitos nematocistos grandes e poderosos,  sua peçonha é antigênica, hemolítica, dermato-necrótica e potencialmente letal para o homem.

Na espécie do Atlântico, Physalia physalis, o flutuador, usado como uma verdadeira vela, possui coloração roxo-azulada, podendo atingir até 30 centímetros de comprimento e mudar seu formato por contrações. Seus inúmeros tentáculos, longos e transparentes, podem chegar a 32 metros de comprimento e conter até 80 mil nematocistos em cada metro.

A caravela é uma das mais temidas criaturas que se pode encontrar flutuando na superfície da água nos mares quentes. É, sem dúvida, a responsável pelo maior número e pelos mais graves acidentes com celenterados no Brasil. Sua maior incidência, em nosso litoral, ocorre no verão, quando podem atingir algumas praias em grande número. Apenas no verão de 1994, foram registrados cerca de trezentos acidentes com estes animais nos litorais de São Paulo e Rio de Janeiro. Destes, muitos necessitaram de atendimento médico e duas crianças tiveram parada respiratória (felizmente responderam bem às manobras de reanimação).

Seus tentáculos, que usualmente se aderem à vítima, são capazes de provocar sérias lesões, grande irritação e intensa dor e ter uma ação neurotóxica que pode causar sintomas sistêmicos severos, como ansiedade, dor nas costas, câimbras, náuseas, vômitos, desmaios, convulsões, arritmias cardíacas e problemas respiratórios. Alguns destes acidentes podem ser fatais devido ao choque e conseqüente afogamento. A literatura médica tem registro de três mortes por acidente com caravela no Atlântico, na costa sul dos EUA.

Prevenção Geral

Sabe-se que algumas águas-vivas conseguem evitar objetos grandes e escuros quando têm oportunidade. Assim, nas áreas com ocorrência desses animais, é aconselhável nadar ou andar bem devagar dentro da água e vestir roupas escuras, para dar chance ao animal de afastar-se com antecedência.
As estatísticas australianas descrevem que o risco de acidente com as águas-vivas é sempre maior nas águas calmas e quentes (90%) e no período da tarde (69%). As partes do corpo mais atingidas, em ordem decrescente, são as pernas (77%), os braços (11%), o tronco (10%) e a cabeça (2%).

É importante lembrar que os tentáculos de algumas espécies podem atingir uma distância considerável do corpo do animal e, por isso, deve-se evitar sua aproximação. No entanto, no caso das águas-vivas, com seus corpos gelatinosos, é preciso ?olhos treinados? para localizá-las a tempo de evitar o contato. Roupas de neoprene, apropriadas para o mergulho, são úteis para evitar a inoculação da peçonha. Os trabalhadores de águas tropicais devem estar adequadamente vestidos para evitá-las.
Mesmo aparentemente mortas e jogadas em uma praia, os tentáculos das águas-vivas e caravelas podem grudar na pele e infligir graves lesões, visto que os nematocistos são descarregados por reações involuntárias. Após as tempestades e ressacas, um nadador pode sofrer sérias lesões ao entrar em contato com tentáculos soltos que ficam boiando na água. Por isso, deve-se, após esses eventos, evitar a natação em locais habitados pelas águas-vivas e caravelas. Cobrir o corpo com óleo mineral, ou similar, pode apenas ajudar a evitar que os tentáculos grudem na pele.

Na remoção dos tentáculos grudados na vítima, nunca use as mãos desprotegidas. Nematocistos ainda carregados podem inocular a peçonha nas mãos do socorrista e torná-lo outra vítima.
   
Aspectos Médicos dos Celenterados

Os sintomas clínicos e as severidades produzidos pelos acidentes com os celenterados estão diretamente relacionados a duas composições variáveis de fatores:

1 - Relativas ao homem: dependerá da capacidade do nematocisto de penetrar na pele humana local do corpo atingido (espessura da pele e quantidade de pelos que a protegem), extensão da área do corpo comprometida e da sensibilidade, estado de saúde e tamanho corporal da vítima (quanto menor o peso, maior a concentração de peçonha no organismo).

2 - Relativas ao animal:  as propriedades peçonhentas de um celenterado dependem não somente da espécie envolvida e, conseqüentemente, da composição química (toxinas) de sua peçonha, mas, principalmente, de uma série de fatores que irão influenciar na quantidade de peçonha inoculada durante o contato com a vítima. Destes fatores fazem parte o número, tamanho e largura dos tentáculos envolvidos, o tempo em que a pele é exposta ao contato e a quantidade de nematocistos aptos a descarregar a peçonha, o que dependerá do espaço de tempo desde a última refeição do animal (nematocistos já descarregados na presa e não repostos). Além disso, fatores ambientais como a salinidade e a quantidade de comida disponível no ambiente e, ainda, o estado fisiológico do animal, podem influenciar na quantidade e potência da peçonha inoculada.

Os sintomas produzidos pelas águas-vivas e caravelas variam bastante. Algumas produzem lesões leves, enquanto outras são capazes de causar muita dor local e sintomas generalizados que podem até levar à morte em poucos minutos. Os sintomas mais freqüentes, que são as manifestações locais, variam de uma suave irritação ou ardência a queimaduras com dor pulsátil ou latejante que pode durar de 30 minutos a 24 horas e deixar a vítima inconsciente. Em alguns casos, a dor é restrita à área do contato, porém, em outros, pode irradiar-se para a virilha, abdome ou axila. A área que entra em contato com os tentátulos geralmente torna-se hiperemiada, podendo ocorrer placas urticariformes lineares, erupção inflamatória, flictena, edema, pequenas hemorragias na pele e até mesmo necrose. Nos acidentes leves, as lesões urticariformes costumam regredir passadas cerca de 24 horas, deixando lesões eritematosas lineares que podem persistir no local por meses.

Nos casos mais graves, onde ocorrem as manifestações sistêmicas, podemos ter cefaléia, mal-estar, náuseas, vômitos, câimbras, rigidez abdominal, diminuição da sensação de temperatura e toque, dor lombar severa, espasmos musculares, perda da fala, sialorréia, sensação de constrição na garganta, dificuldade respiratória, arritmias cardíacas, paralisia, delírio e convulsão. A morte pode ocorrer por efeito da intoxicação, que gera insuficiência respiratória e choque, ou por anafilaxia (reação inflamatória aguda de origem alérgica).
A inoculação de peçonha pelas águas-vivas da ordem Chirodropidae (cubomedusas chamadas vespas-do-mar) está entre os eventos médicos mais dramáticos e constituem-se em um dos mais rápidos processos de intoxicação que se conhece.




Primeiros Socorros

Há muita controvérsia, especulações e opiniões conflitantes com relação aos procedimentos nos primeiros socorros e no tratamento das lesões provocadas pelas águas-vivas e caravelas.  Ainda assim, deve-se atentar para os seguintes aspectos progressivos a serem considerados:
1. O contato inicial com os tentáculos resulta primeiramente em uma modesta inoculação pelos nematocistos.
2. Quanto mais tempo o tentáculo permanecer em contato com a pele, mais nematocistos poderão ser descarregados, já que as descargas são contínuas.
3. Uma substancial quantidade de pedaços de tentáculo é arrancada do animal e gruda na vítima quando a mesma entra em pânico e se debate próximo ao animal.
4. Os esforços subsequentes da vítima, ainda dentro da água, para desvencilhar-se dos pedaços de tentáculo aderidos, costumam resultar em um considerável aumento nas descargas dos nematocistos.

Trata-se de uma situação realmente difícil, onde a questão: "Deve-se ou não tentar remover os tentáculos ainda dentro da água?" é levantada com freqüência. No entanto, observações e estudos dos acidentes têm resultado em recomendações com maiores possibilidades de sucesso. 

Assim, ao ser inoculada, a vítima deve esforçar-se ao máximo para manter-se calma e conseguir sair da água o mais rápido possível, devido ao risco de choque e afogamento, sem, porém, tentar remover com as próprias mãos os tentáculos aderidos. Somente após chegar em terra firme é que haverá a necessidade da remoção cuidadosa dos tentáculos aderidos à pele, sem esfregar a região atingida, o que só pioraria a situação.

Com relação às substâncias efetivas e capazes de desativar as descargas dos nematocistos e/ou diminuir a ação da peçonha, existem muitas opiniões conflitantes. Enquanto algumas são totalmente inócuas e outras podem até mesmo aumentar a inoculação e, conseqüentemente, a lesão, existem aquelas com comprovada eficácia. 
Soluções alcoólicas metiladas como os perfumes, loções pós-barba ou mesmo bebidas alcoólicas (etanol) não devem ser utilizadas, pois em alguns casos podem induzir mais descargas e/ou prolongar a agonia da vítima. Em contrapartida, o hidróxido de amônia diluído a 20%, o bicarbonato de sódio diluído a 50% e o soro do mamão papaia (antiga técnica usada pelos nativos havaianos), além de outros tipos de medicamentos, têm sido usados com variado grau de sucesso para reduzir a ação da peçonha e desativar os nematocistos dos tentáculos que ainda permanecem grudados no local lesionado. Existem relatos não científicos de que a urina também teria efeito sobre a peçonha. Como não há comprovação médica, seu uso é desaconselhável.
Sobre a utilização do vinagre (ácido acético de 4 a 6%), usado largamente como inativador dos nematocistos, alguns estudos assinalam que o mesmo não tem ação anti-álgica e é efetivo somente para a desativação das descargas posteriores dos nematocistos de apenas algumas espécies, podendo provocar efeito contrário em outras.

Alguns autores demonstram que o resfriamento do local da lesão, através da aplicação de bolsas de gelo logo após o acidente, reduz sensivelmente a dor local, contrariando conceitos emitidos por outros autores que contra-indicam este procedimento. 
Desde 1970, a Commonwealth Serum Laboratories vem pesquisando com sucesso um tipo de antídoto desenvolvido a partir da peçonha da água-viva Chironex fleckeri, já tendo conseguido neutralizar em poucos minutos os efeitos locais e sistêmicos em vários banhistas atingidos por esta espécie nas praias da Austrália.
Apesar de toda essa discussão, existem procedimentos, com comprovada segurança, que devem ser seguidos. Os primeiros socorros e o tratamento têm quatro objetivos principais:

1. Minimizar o número de descargas dos nematocistos na pele. 
2. Diminuir os efeitos da peçonha inoculada. 
3. Aliviar a dor. 
4. Controlar sua repercussão sistêmica.

A dor é, em geral, controlada através do tratamento da dermatite. Ainda assim, pode-se utilizar analgésicos simples (Novalgina ou Tylenol) nos casos brandos e a morfina quando a dor é mais intensa. Os anti-histamínicos e corticóides orais ou tópicos são úteis para o tratamento das reações inflamatórias do tipo alérgica.

É importante observar e estar atento para a vítima que é resgatada da água com euforia e grande atividade física e que, de repente, torna-se calma e cooperativa. Esta mudança brusca de comportamento pode significar uma séria manifestação de disfunção do Sistema Nervoso Central (choque neurogênico) advinda do aumento nos níveis de intoxicação sistêmica. A necessidade de reanimação cárdio-pulmonar, nesses casos, pode ser iminente. A assistência ventilatória e outras medidas de suporte hemodinâmico utilizadas em terapia intensiva podem ser necessárias nos casos mais graves e complicados, que poderão também requerer o mesmo tratamento aplicado para as grandes queimaduras por fogo.

A rotina de tratamento para uma vítima de acidente com os celenterados deve seguir os seguintes passos:


Tratamento
A rotina de tratamento para uma vítima de acidente com águas-vivas e caravelas deve seguir os seguintes passos:
1. A primeira medida é lavar abundantemente a região atingida com a própria água do mar para remover ao máximo os tentáculos aderidos à pele. Não utilize água doce, pois ela poderá estimular quimicamente (por osmose) os nematocistos que ainda não descarregaram sua peçonha.
2. Não tente, de modo algum, remover os tentáculos aderidos com técnicas abrasivas, como esfregar toalha, areia ou algas na região atingida.
3. Para prevenir novas inoculações __ ao desativar os nematocistos ainda íntegros e também neutralizar a ação da peçonha __, banhe a região com ácido acético a 5% (vinagre) por cerca de 10 minutos (as soluções de sulfato de alumínio ou amônia, ambas diluídas a 20%, são alternativas para a falta do vinagre). É importante lembrar que o vinagre não possui nenhuma ação benéfica sobre a dor já instalada pela inoculação inicial.
4. Remova suavemente os restos maiores dos tentáculos aderidos com a mão enluvada e com o auxílio de uma pinça. Para retirar os fragmentos menores e invisíveis tricotomize o local com um barbeador ou com uma lâmina afiada. Pode-se aplicar antes um pouco de espuma de barbear em spray, lembrando-se de não esfregar a região.
5. Lave mais uma vez o local com água do mar e reaplique novos banhos de ácido acético a 5% (vinagre) por 30 minutos.
6. Para remover os nematocistos remanescentes pode-se aplicar no local uma pasta de bicarbonato de sódio, talco simples e água do mar. Espere a pasta secar e a retire com o bordo de uma faca.
7. A dor é, em geral, controlada através do tratamento da dermatite. Ainda assim, pode-se utilizar analgésicos simples (Novalgina ou Tylenol) nos casos brandos e a morfina quando a dor é mais intensa. Os anti-histamínicos e corticoides orais ou tópicos são úteis para o tratamento das reações inflamatórias do tipo alérgica __ consulte sempre um médico para orientação.
8. Havendo reação alérgica/inflamatória, aplique uma camada fina de loção do corticoide betametazona (Betnovat) duas a três vezes ao dia. Nos casos mais graves, utilize anti-histamínicos ou corticoides orais __ consulte sempre um médico para orientação.
9. Em caso de infecção secundária, será necessário o uso de antibióticos com amplo espectro, tópico (bacitracina ou neomicina) ou sistêmico (ampicilina + acido clavulânico), de acordo com a gravidade __ consulte sempre um médico para orientação.