domingo, 25 de abril de 2010

Agricultura Biodinâmica

Toda agricultura biodinâmica é orgânica, mas nem toda forma de cultivo orgânico pode ser considerada biodinâmica.

A biodinâmica segue os preceitos orgânicos de banimento de todo e qualquer composto sintético - excluindo adubos, fertilizantes, pesticidas, herbicidas, hormônios de crescimento, além de sementes transgênicas, mas aplica e defende técnicas antroposóficas e até ciclos lunares. Segundo a Associação Biodinâmica, seus compostos são dinamizados a partir de plantas medicinais, esterco e silício (quartzo), que são envoltos em órgãos animais, enterrados no solo e submetidos às influências da Terra e de seus ritmos anuais. O uso da palavra "dinamizadores" me lembrou automaticamente a Homeopatia e realmente o uso dos substratos de origem orgânica, é mais fundamentado na energética do que na bioquímica, como acontece com os orgânicos.

Ainda não há uma posição oficial sobre os benefícios do alimento biodinâmico, mas já existe uma imensa polêmica acerca dos vinhos produzidos respeitando esses preceitos.

"Não é bruxaria, é energia":
O método tradicional é o mais comum, o modo antigo, onde os vinicultores usam todos os recursos para produzir um bom vinho. Esperamos que usem os recursos químicos com sabedoria. É a melhor forma de reagir aos caprichos da natureza.

O vinho orgânico está em alta e exige que o produtor use apenas métodos naturais de produção, sem a intervenção de fertilizantes, agrotóxicos ou qualquer outra ajuda química. Para ter um selo de vinho “orgânico”, as restrições são muito duras e os produtores acabam desistindo do método e do selo, ao longo da produção.

O vinho biodinâmico não tem nada haver com o orgânico e está associado a cuidados especiais com a saúde da vinha através dos ciclos da Lua, com aplicações de “sílica” nas vinhas (um tipo de sal) e muitos outros cuidados estranhos. Tratando a vinha como um organismo vivo, quase como uma pessoa, em contacto com a natureza. Foi criada por Rudolf Steiner em 1924. Um produtor biodinâmico de sucesso é Alvaro Palácios, o grande responsável pelo desenvolvimento da região do Priorato na Espanha. Eu não sou especialista, mas pelo que estudei na técnica biodinâmica o produtor usa recursos da natureza para tratar e cuidar da videira, como por exemplo plantar rosas entre as videiras para servir de alarme contra pragas. Colheita manual e uso de animais são práticas desse sistema, que parece muito antigo, mas na verdade hoje é o mais moderno.

Mais informação sobre os vinhos biodinâmicos em "Sem trator nem pesticida".



Ainda sobre a Biodinâmica, no Planeta Orgânico, encontramos que "de acordo com esta corrente, a saúde do solo, das plantas e dos animais dependem da sua conexão com as forças de origem cósmica da natureza. Para restabelecer o elo de ligação entre as formas de matéria e de energia presentes no ambiente natural, é preciso considerar a propriedade agrícola como um organismo, um ser indivisível. Através do equilíbrio entre as várias atividades (lavouras, criação de animais, uso de reservas naturais), busca-se alcançar maior independência possível de energia e de materiais externos à fazenda. Este é o princípio chamado de "auto-sustentabilidade", que vale tanto para a agricultura biodinâmica como para todas as outras correntes da Agroecologia."


No Planeta Sustentável, outra produção biodinâmica é abordada, vinhos!

A onda dos orgânicos começa a reverberar nas taças de vinho de produtores e apreciadores da bebida no mundo todo. Na França, um grupo autointitulado "produtores de vinhos naturais" apregoa a não-intervenção absoluta no manejo das parreiras e na elaboração dos vinhos. Não usam química no cultivo e, em vez do dióxido de enxofre, cultivam leveduras para incentivar a fermentação. 

Nicolas Joly, especialista francês em biodinâmica e autor de Vinho, do Céu à Terra, afirma que a casca das uvas possui conservantes naturais capazes de proteger a bebida. No Brasil, pesquisa realizada em 2009 pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) revelou que 56% das amostras de uvas coletadas no país apresentavam agrotóxicos acima do permitido. 


De olho nesses dados, a Vinícola Lídio Carraro, de Bento Gonçalves (RS), promete, para novembro, o lançamento das primeiras garrafas naturais brasileiras. "A tarefa não é fácil", afirma Patrícia Carraro, uma das proprietárias. "As uvas pegam doenças muito facilmente. Sem defensivos, podem estragar antes do tempo, adoecer. Tentamos controlar a técnica para ter vinho orgânico de qualidade no mercado." 

O afamado crítico de vinhos do The New York Times, Eric Asimov, vislumbra que a bebida ao natural pode revolucionar a viticultura. "A era dos orgânicos contribuiu para melhorar a qualidade e o sabor da comida. O mesmo pode ocorrer com os vinhos." 



Sobre a Biodinâmica, no Wikipedia tem um tom um pouco marketeiro, mas vale dar uma lida:
A Biodinâmica quer lembrar todos os homens que: "A Agricultura é o fundamento de toda cultura, ela tem algo a ver com todos".
O ponto central da Agricultura Biodinâmica é o Ser Humano que conclui a criação a partir de suas intenções espirituais baseadas numa verdadeira cognição da Natureza.
Esse quer transformar sua fazenda ou sítio em um organismo em si concluso e maximamente diversificado; um organismo que a partir de si mesmo for capaz de produzir uma renovação. O sítio natural deve ser elevado a uma "espécie de individualidade agrícola".
O fundamento para tal é a integração de todos os elementos ambientais agrícolas como culturas do campo e da horta, pastos, fruticulturas e outras culturas permanentes, florestas, sebes e capões arbustivos, mananciais hídricas e várzeas etc. Caso o organismo agrícola se ordene em volta desses elementos, nasce uma fertilidade permanente e a saúde do solo, das plantas, dos animais e dos seres humanos.
A partida e a continuidade desse desenvolvimento ascendente da totalidade do organismo-empresa é assegurado pelo manejo biodinâmico dos tratos culturais agrícolas e do uso de preparados apresentados pela primeira vez por Rudolf Steiner durante o Congresso de Pentecostes. Trata-se de preparados que incrementam e dinamizam a capacidade intrínseca da planta a ser produtora de nutrientes, seja por mobilização química, transmutação ou transubstanciação do mineral morto ou por harmonização e adequação na reciclagem das sobras da biomassa produzida. Preparados que simultaneamente apóiam a planta a ser transmissor, receptor e acumulador do intercâmbio da Terra com o Cosmo.
Adubar na biodinâmica significa, portanto, aviventar ou vivificar o solo e não apenas fornecer nutrientes para as plantas.
A única preocupação que devemos ter é o que fazer para que isso aconteça. Nesse caso é possível abster-se de tudo que hoje em dia parece ser imprescindível. Na Agricultura Biodinâmica não se usam adubos nitrogenados minerais, pesticidas sintéticos, herbicidas e hormônios de crescimento etc. A concepção do melhoramento biodinâmico dos cultivares ou das raças está em irrestrita oposição à tecnologia transgênica. A ração para os animais é produzida no próprio sítio ou fazenda e a quantidade dos animais mantidos está em relação com a capacidade natural da área ocupada.
O agricultor biodinâmico está empenhado em fazer somente aquilo pelo qual ele mesmo pode responsabilizar-se, a saber, o que serve ao desenvolvimento duradouro da "individualidade agrícola". Isso inclui o cultivo e a seleção das suas próprias sementes como também a adaptação e a seleção própria de raças de animais. Além disso, significa uma orientação renovada na pesquisa, consultoria e formação profissional.
O agricultor biodinâmico aprende, dentro do processo de trabalho, a ser ele mesmo um pesquisador, aprende a participar e transmitir sua experiência a outros e formar dentro do seu estabelecimento um local de formação profissionalizante para gerações vindouras.
Uma renovação desta natureza desperta o interesse das pessoas que vivem nas cidades. Elas ligam-se com esta ou aquela fazenda ou sítio, apóiam e ajudam como podem, tornando-se fieis fregueses. Elas colaboram na formação de mercados regionais tornando-se como associados solidários mútuos. Há iniciativas novas de importância fundamental em toda parte para que a Agricultura possa enfrentar com sua autonomia regional a globalização do mercado mundial. Agricultura não é somente profissão para ganhar dinheiro, mas é principalmente encargo de vida, é vocação.



O mais importante nessa discussão toda, é verificar se o alimento orgânico, biodinâmico ou não, é certificado pela ABIO, IBD ou qualquer das certificadoras apresentadas na imagem acima.
E já existem lojas vendendo os produtos de cultivo biodinâmico a granel, especialmente o arroz integral.



Mais informação:
Hidroponia x Agricultura Orgânica
Como comprar e reconhecer produtos orgânicos
Slow Tea: chás e especiarias orgânicos e biodinâmicos
“O veneno está na mesa 1 e 2” e "Nuvens de Veneno"
Tudo que você queria saber sobre orgânicos, mas não tinha uma nutricionista para peguntar

Ilha das Flores e Estamira



Quando as chuvas causaram a enchente, que provocou um desabamento, que por sua vez, fez comunidades inteiras virem abaixo no que era um morro (de lixo), o Morro do Bumba, a minha primeira reação foi prestar socorro na Cruz Vermelha, como postei em Tragédia, Sustentabilidade e Voluntariado.
Retirar a flecha antes de investigar de onde a mesma veio, como ensina o Zen.

Sempre tive vontade de escrever alguma coisa acerca, com calma, agora que os holofotes da imprensa apontam em outras direções e a população, que fornece a matéria prima dos lixões urbanos, já está praticamente esquecendo do assunto. Mas, como uma imagem vale mais do que mil palavras, que Ilha das Flores leve à essa reflexão do lixo que nós geramos todos os dias.

O curta Ilha das Flores, que deveria ser apresentado nas escolas de todo país, redes pública e particular.
Narrado pelo grande ator Paulo José, esse curta premiado mostra o ciclo do lixo produzido pelas residências de classe média e como populações inteiras vivem desses restos.

Da mesma forma que nós criamos o lixão do Morro do Bumba, além de inúmeros outros, nós também fizemos da Ilha das Flores, uma sucursal do inferno na Terra.







Documentário brasileiro vencedor de 25 prêmios internacionais, "Estamira" retrata o dia a dia de uma mulher de 63 anos, que sofre de distúrbio mentais e sobrevive às custas do que coleta em Jardim Gramacho - o maior aterro sanitário do Rio de Janeiro, que recebe diariamente 8.000 toneladas de lixo.

Mais sobre Jardim Gramacho e Marcos Prado, em Biocombustíveis obtidos a partir da cogeração de energia limpa e no Aterro Sanitário para redução de emissões de CO2








Outros filmes na mesma linha:
Levante sua voz
Lixo Extraordinário
A Ilha de lixo no Pacífico


Mais informação:
Como funciona um aterro sanitário
A Eco-ilha, ilha-lixão ou eco-barco
"Fingi ser gari por 8 anos e vivi como um ser invisível"
A praga da reciclagem artesanal: não é sustentável e é horrível
O mito da embalagem sustentável: manual básico de reciclagem
Você compra demais ou "De onde vem o lixo produzido no mundo?"

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Hidrelétrica de Belo Monte

Considerada a maior obra do PAC, Belo Monte gera uma polêmica de 20 anos, intensificada em fevereiro de 2010, em função da aprovação da licença e está com leilão anunciado para abril.

Em tempo, independente do país ter um imenso potencial solar, eólico e de marés, faz sentido a fonte geradora de energia ser responsável pela derrubada de quilômetros de floresta nativa, quando são justamente as árvores presentes as maiores captoras de CO2, como ocorre na construção de qualquer hidrelétrica?
Existe desenvolvimento sustentável num programa de crescimento que realoca populações nativas, que vivem da subsistência local exatamente para construção da hidrelétrica supracitada?


A Energia Barata de Belo Monte
Antônia Melo da Silva, integrante do Movimento Xingu Vivo para Sempre.
31/07/2009

"Insanidade é fazer sempre as mesmas coisas, esperando resultados diferentes"
Albert Einstein.

A todo momento a mídia está divulgando entrevistas com representantes do governo federal ou diretores da Eletronorte e Eletrobrás anunciando as datas para a emissão da licença prévia e o leilão da usina hidrelétrica de Belo Monte. Uma última declaração do ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, nos chamou a atenção. Afirma que "a sociedade não pode ser penalizada com energia mais cara, porque os ambientalistas e ONGs atrapalham a construção das hidrelétricas". Como pôde afirmar que a energia de Belo Monte será mais barata se os estudos de viabilidade econômica não foram entregues pelo consórcio à sociedade?

Os estudos e o relatório de impacto ambiental (EIA/RIMA) foram recentemente aceitos pelo IBAMA, apesar do reconhecimento dos técnicos do órgão de que estavam incompletos. Só agora, a sociedade civil está começando a ter contato com os 36 volumes com mais de 20.000 páginas de estudos produzidos pelos empreendedores e deve haver amplo diálogo antes de se tomar uma importante decisão cujo impacto afetará a vida de tantas pessoas, muitas delas populações indígenas e extrativistas.

Em audiência realizada no dia 17 de março de 2009 com diretores da Eletrobrás e Eletronorte, diversos vereadores, secretários municipais, prefeitos, deputados federais e estaduais da região da transamazônica, poucas informações a respeito dos impactos sócio-ambientais da obra e das medidas mitigadoras e compensatórias propostas foram apresentadas. Muitos dos que até então vinham apoiando o processo recuaram diante de algumas informações (ou falta delas!). O entusiasmo inicial manifestado pelos mais diversos representantes dos governos da região cedeu lugar à decepção quando o diretor da Eletrobrás anunciou que royalties da obra beneficiariam somente às prefeituras de Altamira, Brasil Novo e Vitória do Xingu e ao governo do estado. Vários representantes dos municípios da região que sofrerão impactos da obra viram a possibilidade de suas demandas não serem atendidas.

As análises ainda preliminares apontam lacunas e sérias distorções nas informações apresentadas que precisam ser esclarecidas, tais como: 1) Qual a quantidade de famílias e de povos indígenas atingidos direta e indiretamente pela obra? 2) De que forma serão atingidos e quais serão as medidas mitigadoras para apoiar todas essas pessoas?(3) Como as cidades e regiões impactadas estão sendo preparadas do ponto de vista da infra-estrutura para receber um grande contingente populacional?

É fundamental que nesse processo também sejam esclarecidos os aspectos relacionados aos custos da obra. Será que os custos do empreendimento, quando comparados à energia que será efetivamente gerada, considerando-se a grande variação de vazão do rio Xingu nos períodos de pico e de seca, justificarão os gastos propostos? A verba pública está sendo utilizada de maneira eficiente e em prol da sociedade como um todo A previsão de custos do empreendimento anunciada na mídia varia de 7 a 30 bilhões de reais! Em face de tamanha incerteza e de custos possivelmente subestimados, algum investidor já vem dando sinais de reticências quanto a sua participação no negócio.

A decisão de construção de uma obra desse porte, numa Bacia como a do Rio Xingu, com sócio-biodiversidade única no planeta, não pode ser tomada de qualquer jeito, atropelando a população, os costumes locais, a sabedoria dos povos das florestas, atropelando o próprio processo de licenciamento previsto em Lei.

Quando a sociedade se manifesta contra Belo Monte, não se trata de uma oposição à obra de infra-estrutura, mas sim uma oposição ao desrespeito do governo para com o povo, sem a promoção do devido diálogo que a questão merece. Trata-se de uma oposição a um modelo de desenvolvimento que desrespeita os modos de vida tradicionais, que exaure os recursos ambientais e ameaça a sobrevivência dos povos e das futuras gerações da região.

A população se manifesta contra todos os processos desastrosos promovidos por usinas já implementadas na Amazônia, como Balbina e Tucuruí por exemplo. E a sociedade está cansada de projetos de qualquer natureza que não sejam apresentados e conduzidos de forma transparente e democrática.


Histórico
Com quase 2. mil km de extensão, o rio Xingu atravessa os estados do Mato Grosso e Pará até desembocar no rio Amazonas. Mais da metade do seu território é formada por áreas protegidas. Estima-se que 14.000 índios vivam no seu entorno.

No final da década de 1970, teve início o projeto de construção de um complexo hidrelétrico para o rio Xingu. Ele previa a construção de 7 que alagariam 12 terras indígenas. Em 1989, uma mobilização nacional e internacional, liderada pelos índios Kayapó, paralisou os planos da Eletronorte.

Ao longo dos anos 2000, este projeto foi retomado. Em 2005 a construção da UHE Belo Monte, que seria a primeira hidrelétrica do complexo, foi aprovado pelo Congresso Nacional sem debate e sem a necessária consulta às comunidades indígenas afetadas conforme estabelece a Constituição Federal.

O Plano Integrado para a Bacia do Xingu, elaborado pela Eletrobás em 2009, mostra que a viabilidade de Belo Monte depende da construção de barragens a montante que garantiriam a regularização da vazão do Xingu , que é altamente sazonal. Isso significa que para que as turbinas de Belo Monte não fiquem ociosas será necessário a liberação de águas de represas que teriam de ser construídas a montante. Os cinco reservatórios previstos no plano original seriam enormes. Somente uma delas inundaria uma vasta área de 6.140km2.

Ainda que tenha desaparecido do discurso público, no processo de licenciamento de Belo Monte, o plano de construção das demais represas não foi abandonado, estando a segunda delas, (UHE Altamira) prevista no Plano Decenal de Expansão de Energia: 2003-2012.

Recentemente foi revelado que o custo de Belo Monte seria entre R$ 20 a 30 bilhões (estimativa da CPFL Energia) e de R$ 30 bilhões (estimativa Asltom) e não de R$ 7 bilhões conforme anunciado pelo governo. Isso aponta o forte interesse das construtoras em garantir a construção da usina. Algumas dessas construtoras, como a Camargo Correa, possui uma usina de sílica metalúrgica em Breu Pará que se beneficia de preços subsidiados da Energia da UHE Tucurui (também construída pela Camargo Correa) e que será alimentada pela energia das barragens do Xingu.

Além disso, estão sendo desconsideras pelo governo, as conclusões do parecer do IBAMA, uma peça fundamental deste processo que deveria, mas não está sendo disponibilizada no site do órgão como parte do processo de licenciamento ambiental de Belo Monte. Neste parecer, técnicos do IBAMA afirmam que, em vista do prazo estipulado pela Presidência, não puderam aprofundar diversas análises, como, por exemplo, as referentes a questões indígenas e as contribuições das audiências públicas. Também afirmam que os estudos apresentados não apresentam informações que concluam acerca da manutenção da biodiversidade, a navegabilidade e as condições de vida das populações do trecho da vazão reduzida. Igualmente, os impactos decorrentes do afluxo populacional não foram dimensionados a contento.

Também as análises sobre o Estudo de Impacto Ambiental de Belo Monte feitas pelo Painel de Especialistas, que reúne pesquisadores e pesquisadoras de renomadas universidades do país, apontam a inviabilidade econômica do projeto, seu impacto negativo sobre a população indígena e ribeirinha e o caos social que seria causado pela migração de mais de 100 mil pessoas para a região e pelo deslocamento forçado de mais de 20 mil pessoas. Tais impactos, segundo o Painel, são acrescidos pela subestimação da população atingida e pela subestimação da Área Diretamente Afetada. Esses mesmos estudos revelam os impactos sobre peixes e fauna aquática apontando a possibilidade de extinção de espécies e as emissões de grandes quantidades de gases de efeito estufa.

Os movimentos e organizações sociais do Xingu reafirmam sua resistência ao projeto, diante da ofensiva de setores do governo em aprová-lo sem debate com as comunidades afetadas e sem realizar a obrigatória consulta às comunidades indígenas - ao contrário do que está previsto na Convenção 169 (OIT), da qual o Brasil é signatário.


Para saber mais:

Veja documentário "Xingu: porque não queremos Belo Monte", onde comunidades indígenas e ribeirinhas que vivem na região da Volta Grande do Xingu revelam como as bases simbólicas e materiais que garantem sua sobrevivencia no território serão afetadas pela construção da usina.



O que você pode fazer?

Apóie as ações em defesa do Xingu e de seus povos! Assine a carta que será enviada às autoridades solicitando que seja anulada a licença prévia da Hidreletrica de Belo Monte. É preciso que seus impactos socioambientais sejam reavaliados. E que sejam discutidos com toda a sociedade os custos da política energética para a Amazonia, que aloca grande quantidade de energia na rede nacional para a mineração e beneficiamento de aluminio, indústria de exportação subsidiada.

Por favor, recorte e cole a carta abaixo e envie-na para os endereços das autoridades:

Isso lhe tomará apenas alguns minutos e será importante para a luta em defesa dos direitos dos povos que vivem no Xingu.

Emails: casacivil@planalto.gov.br, gabinete@mme.gov.br, carlos.minc@mma.gov.br, roberto-messias.franco@ibama.gov.br

Cc: deborah@pgr.mpf.gov.br, jose.coimbra@mme.gov.br, secex@mme.gov.br, see@mme.gov.br, ouvidoria.geral@mme.gov.br , vitor.kaniak@ibama.gov.br, izabella.teixeira@mma.gov.br, rbja@fase.org.br

Ao Sr. Presidente da Republica Luiz Inácio Lula da Silva
Ao Sr. Ministro de Energia Edison Lobão
Ao Sr Ministro do Meio Ambiente Carlos Minc
Ao Sr. Presidente do IBAMA Roberto Messias Franco

Cc: A Subprocuradora geral da Republica sra Débora Duprat
Ao Secretário-Executivo do MME Márcio Pereira Zimmermann
Ao Chefe de Gabinete do MME José Antonio Corrêa Coimbra
A Secretaria Executiva do MMA Izabella Mônica Vieira Teixeira
Ao Secretario de energia Elétrica do MME Josias Matos de Araujo
Ao Chefe de Gabinete do IBAMA Sr Vitor Carlos Kaniak


Prezados/as senhores/as,

Vimos por meio desta manifestar nossa extrema preocupação com a decisão deste governo de construir a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, bem como nossa indignação com o processo de exclusão da sociedade civil no debate, e o que é mais grave, a exclusão dos que serão diretamente impactadas pela construção da Usina,a que estão submetidas as populações da Bacia do rio Xingu, que serão diretamente impactadas pela construção da Usina.

Nos preocupa, em especial, a desconsideração, por parte desse governo, das conclusões do parecer do IBAMA, uma peça fundamental deste processo que deveria, mas não está sendo disponibilizada no site do órgão como parte do processo de licenciamento ambiental de Belo Monte. Neste parecer, técnicos do IBAMA afirmam que, em vista do prazo estipulado pela Presidência, não puderam aprofundar diversas análises, como, por exemplo, as referentes a questões indígenas e as contribuições das audiências públicas. Também afirmam que os estudos apresentados não apresentam informações que concluam acerca da manutenção da biodiversidade, a navegabilidade e as condições de vida das populações do trecho da vazão reduzida. Igualmente, os impactos decorrentes do afluxo populacional não foram dimensionados a contento.

Também as análises sobre o Estudo de Impacto Ambiental de Belo Monte feitas pelo Painel de Especialistas, que reúne pesquisadores e pesquisadoras de renomadas universidades do país, apontam a inviabilidade econômica do projeto, seu impacto negativo sobre a população indígena e ribeirinha e o caos social que seria causado pela migração de mais de 100 mil pessoas para a região e pelo deslocamento forçado de mais de 20 mil pessoas. Tais impactos, segundo o Painel, são acrescidos pela subestimação da população atingida e pela subestimação da Área Diretamente Afetada. Esses mesmos estudos revelam os impactos sobre peixes e fauna aquática apontando a possibilidade de extinção de espécies e as emissões de grandes quantidades de gases de efeito estufa.

Exigimos uma posição ambiental e socialmente responsável dos órgãos de planejamento, controle e gestão ambiental do país, que deveriam proteger nossos rios e seguir o que estabelece nossa Constituição no que se refere à realização de consultas informadas e de boa fé às populações indígenas afetadas pelo projeto e debate ampliado com toda a sociedade. No entanto, o que vemos é a defesa e o apoio desses órgãos à construção de um projeto tão impactante como Belo Monte.

Por isso, apoiamos a demanda dos povos da Volta Grande do Xingu para que no lugar da construção dessa grande represa, seja priorizada a consolidação do projeto de agricultura familiar nessa região, iniciado nos anos 1970, através do ordenamento fundiário e ambiental, da infra-estrutura para os assentamentos, da recomposição do passivo ambiental, da melhoria da qualidade de vida dos moradores das áreas rurais e urbanas, assim como a implementação das Reservas Extrativistas.

Em respeito aos direitos das populações da Bacia do Xingu, exigimos que seja revista a recente decisão de conceder a licença prévia para o projeto de Belo Monte. Estamos em aliança com os povos do Xingu nessa causa e contra todo e qualquer projeto que ameace a preservação da Amazônia e das futuras gerações.

Atenciosamente,

Nome, documento, instituição (se for o caso)


A foto, retrata o Encontro de Altamira, que reuniu 3 mil pessoas, 650 índios entre elas e foi considerado um marco do socioambientalismo no Brasil.


Assine a Petição Avaaz por Belo Monte




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quinta-feira, 22 de abril de 2010

Manteiga de Castanha do Pará com Huile de Noix



A Karin viu a receita da pasta de amêndoas e fez em nozes, porque era o que tinha, diz que ficou incrível e eu boto fé - a fonte é boa (e a foto acima dela).

Como eu havia estado na loja nordestina que vende a granel e comprado 1kg de castanha do Pará, resolvi arriscar e deu certo também.
Mas não usei azeite de oliva, meu azeite de oliva está vermelho, pois decidi colorir o mesmo com urucum para fazer outra manteiga, de alho... Então, substituí por azeite de nozes extra virgem francês, huile de noix.
1 xícara de castanhas para meia xícara do azeite, muito bem batido no liquidificador.

A textura ficou perfeita, lembrou tahine, uma manteiga homogênea de castanha do Pará com óleo de nozes prensado a frio, rendeu muito e foi o acompanhamento perfeito para a torrada integral. Reguei com um fio de melado de cana e me deliciei.


















Se você ainda não conhece huile de noix, vale a pena provar. É considerado o melhor azeite extra-virgem produzido na França, onde a Gastronomia é levada à sério e a noz da nogueira considerada um orgulho nacional.
Proporciona um sabor surpreendente em saladas, sopas cremosas, para fazer molho pesto, raspar no pãozinho ou mesmo no iogurte natural com melado e canela. Há uma página exclusiva para ele no Wikipedia, em francês.

Não é caro, principalmente se levado em conta o rendimento, 500ml custam em média R$20,00. Consegui encontrar a R$14,00 na Rede Sendas. Na Rede Pão de Açúcar está a R$23,00.

Comprando castanhas, dê preferência às orgânicas, não são pulverizadas com inseticida.


Veja também como fazer seu huile de noix aromatizado com canela em pau, cardamono ou baunilha em favas e, querendo variar, como fazer um peanut butter de tahine com melado de cana



Para Nutella caseira:
Fazendo Nutella orgânica, sugar-free, vegana, crua ou como você quiser, em casa

sábado, 17 de abril de 2010

Bolo Bolo: a vida num mundo sem dinheiro

"Bolo Bolo" foi um manifesto originalmente anônimo sobre como seria a vida num mundo sem dinheiro, em tese, como seria o mundo dividido apenas em ecovilas autogeridas.

Ecovilas divididas por afinidades culturais, religiosas, esportivas, de trabalho ou mesmo familiares. O "Bolo" não é de esquerda ou direita, propõe a produção sustentável e próspera, além da liberdade coletiva através da extinção do estado e da autoridade.

É o meu livro favorito, aquele que, quando lido, causa a reação de um choque - até porque o grau de detalhamento é imenso, sugerindo cargos diplomáticos por comunidade e até a transformação dos meios de transporte.

Há muito da "Utopia", de Morus nele, incluindo a divisão por faixas etárias em cada comunidade e alguma coisa da "Desobediência Civil", de Thoureau também.
O livro está igualmente disponível para baixar de graça, no site da Sônia, que chegou a publicá-lo.

E claro, Cristiânia foi o que chegou mais perto da aplicabilidade prática de sua teoria.

Recomendo fortemente a leitura dele, antes de qualquer outra, a base de qualquer conceito libertário e sustentável, está no "Bolo Bolo".



Para entender melhor, parte da resenha acerca do "Bolo Bolo" no Overblog:

A partir de palavras e sons do dialeto samoano, o autor criou um utopia (não no sentido de em nenhum lugar ou algo impossível) para a cosntrução de vivências humanas providas de sentido. "Bolo bolo" é realidade. Não é uma seita, confraria ou coisa hermética. Pelo contrário, é a hospitalidade, a liberdade, o convívio, a bem-aventurança.

Eu fico pensando em como nós esperneamos reclamando do mundo, do sistema, do capitalismo e quetais e nada fazemos de real, de vida (e nisso eu me incluo). Nossa teoria está alienada de uma práxis, de um cotidiano.

"bolo bolo" é uma linguagem nova, estranha, para dizer as "velhas" coisas que o espírito humano almeja. Viver sonhos bons, estar junto à natureza, viver a fraternidade, a criatividade, etc.



Segue abaixo a transcrição de entrevista traduzida com autor:

Transcription of a video by O. Ressler, recorded in Zurich, Switzerland, 2004

A idéia original de criar esta linguagem secreta maluca me veio porque a terminologia de esquerda européia já não era mais viável. Hoje, quando as pessoas falam sobre comunismo, é gulag, ninguém quer saber nada a respeito. Ou, se falam sobre socialismo, então se referem à política de Schröder ' cortes nas aposentadorias ' e ninguém tampouco se interessa. E todas as demais expressões estandardizadas, tais como "solidariedade", "comunidade", estão todas contaminadas e não têm mais utilidade. Entretanto, as coisas que defendem na verdade são muito boas. Eu não tenho intenção de sofrer por causa de terminologia, pela qual não sou culpado; em vez disso, prefiro criar meu próprio jargão. Seria mais complicado explicar que o comunismo sobre o qual estou me referindo não é aquele que presenciei. É mais fácil dizer que sou um bolo-bolo, e aí as pessoas começam a pensar tudo de novo e a repensar as coisas.

Nasci na Suíça e moro em Zurique. Minha tarefa principal é lecionar numa escola secundária e sempre fui politicamente ativo nas minhas horas livres. Sou um velho ativista de 1960; estava lá, nas demonstrações anti-Vietnã e tudo aquilo. Mais tarde também estive com os sem-teto e tomei parte nos movimentos antinucleares. Fiquei um pouco envolvido em tudo que aconteceu. E então, de alguma maneira, o movimento cessou; ainda havia um movimento sem-teto em Zurique, e também sei que muitas casas em Genebra foram ocupadas, mas a coisa foi calmamente dominada pela polícia. Depois não restou mais nada lá. Seguiu-se, então, um clima depressivo, como costuma acontecer depois de tais movimentos cíclicos. Naquele momento eu disse: vou escrever tudo o que ainda devemos considerar como importante. Fiz uma lista, como a de natal, uma longa lista de coisas que ainda considero que vale a pena -- colocar na meia.

Aí eu li a lista e vi que parece bem chata agora. Por exemplo, coisas como "queremos viver juntos, uns com os outros, em solidariedade", "não queremos crescimento econômico", ou "queremos respeitar o meio ambiente". São todas aquelas chatices sócio-ecológicas que podem ser encontradas em plataformas de partidos. Eu queira espanar isso um pouco, por isso pensei, OK, vou inventar uma utopia. Porém não é, de maneira nenhuma, uma utopia. Conheço todas as utopias. Na maneira como são descritas, são de certo modo atraentes. Mas fiquei também sumamente fascinado pelo arredondamento, ao submergir em outros mundos com sua própria terminologia. Pensei: consigo vender essas coisas de maneira bem melhor, essas noções desejadas, se eu as dissimular como utopias.
Por isso inventei esta linguagem. "bolo-bolo" realmente não quer dizer nada a não ser comunismo. É simplesmente uma tradução; tratam-se de sistemas de sons polinésios. Certa vez estive em Samoa e gostei muito de lá. Há certos paralelos lá, remanescentes de sociedades relativamente intactas, portanto aí estava o meu livro.

Devo enfatizar que não existe uma única idéia nova nesse livro. Tudo se refere a algo que já tinha encontrado. É possível chegar ao bolo, à unidade por meio de várias direções, à unidade básica de como as pessoas podem conviver juntos com alguma sensibilidade sem destruir o planeta, seus nervos e seus produtos. Uma abordagem é a comunicação: quando as pessoas não conseguem falar racionalmente umas com as outras, elas se tornam dependentes de autoridades em escalões mais altos, têm de ter supervisores para realizar sua comunicação. Compreendemos, por exemplo, a teoria da comunicação que diz que ela pode funcionar informalmente com até 150 pessoas, o que significa que não são necessárias quaisquer estruturas. Fica, então, muito confortável e existem muito mais argumentos que o necessário, pelo fato de a comunicação ser tão fácil. Por isso cheguei a uma unidade básica, uma reunião, que deve ser relevantemente maior que 150. Digo que 500 não seria mau, 400, 600, 700 ou 800. Aí existe outro limiar que precisa ficar por volta de 1000, após o que se torna necessário delegar, para organizar. Tal administração exigira, então, um comitê e um certo nível profissional. Aqui chegamos ao domínio de uma burocracia estruturalmente necessária. E eu não gosto disso; a coisa cresce rapidamente, porque ninguém controla a burocracia, para que ela realmente faça aquilo que você quer. E esses órgãos de controle são, novamente, susceptíveis de corrupção e têm de ser monitorados; fica bem complicado.
Para mim, a janela encontra-se em algum lugar entre a organização social sensível do conforto das 150 pessoas e aquela, desconfortável e incipiente, das 1 000 pessoas. Têm de estar nesse meio-termo: esse é o caminho. Outro caminho poderia ser algo mais ecologicamente orientado. Os problemas ecológicos do planeta ficam no Norte, onde carecemos de aquecimento e onde criamos um projeto urbano que exige transporte em automóveis, por exemplo. Se a gente quiser se livrar disso, se quisermos reduzir o consumo de energia a um nível globalmente aceito, então aproximadamente um quinto do consumo presente teria de ser realçado aqui. Não estou falando do Sul; lá eles já usam 100 vezes menos energia que nós. Quanto a isso, não enfrentam problemas; eles talvez tenham um problema oposto. Vão ter que crescer para atingir um quinto da energia consumida. Mas, se a idéia é consumir menos energia, então não é mais possível ter carros, ou casas de uma única família, as pessoas terão de se movimentar conjuntamente. Então será possível pensar num tamanho de casa que seja mais fácil de isolar e menos custosa de aquecer. Os prédios se tornarão cada vez mais compactos, porque então o relacionamento da superfície externa com a quantidade é a mais eficiente. Isso quer dizer que é no Norte, por exemplo, nos Estados Unidos, que as pessoas morando em casas pequenas e suburbanas teriam de mudar para palácios "do povo", ou eco palácios, mais fáceis de aquecer. Eu sempre digo que é possível fazer uma tipologia abertamente concreta, que naturalmente a gente tem que encarar com ironia. Todos nós temos que morar em edifícios que têm oito andares, cerca de 100 metros de comprimento por 20 de largura. Esta monstruosidade de concreto é uma necessidade ecológica.

Eu sempre começo com este bolo urbano ocidental. Nunca dito regras de como outras pessoas devem se organizar. Simplesmente pego a Suíça como exemplo, mas dá no mesmo para o resto da Europa ocidental. Como organizar a agricultura em conjunção com essas estruturas urbanas? Minha sugestão, e também a de muitas pessoas que vem estudando ecologia e agronomia, é a seguinte: na Europa ocidental, para suprir as necessidades de um bolo assim, necessitaríamos de 90 hectares do tipo de terreno que temos aqui. Numa cidade média como Zurique, esses 90 hectares podem ser encontrados num raio de cerca de 30 km em volta da cidade, aqui haveria espaço. Isso continua disponível, se não construirmos e pavimentarmos tudo em breve. E então seria possível, num sentido puramente esquemático, designar cada bolo para uma fazenda de 90 hectares. Isso é um cálculo bem generoso, porque na Suíça as fazendas medem, em média, 15 hectares, na Áustria talvez sejam um pouco maiores. Embora se tratem de unidades relativamente grandes, isso não significa que grandes áreas tenham de ser convertidas em fazendas. Essas teriam, intrinsecamente, estruturas bem diferenciadas, onde seria possível produzir tudo, de batatas a leite. Isso permitiria atingir uma boa eficácia ecológica, porque um caminhão pequeno ' ou talvez mesmo um vagão de trem ' teria de viajar apenas uma vez por semana entre a área rural e a urbana. Para a viagem de retorno, poderiam carregar fertilizantes. Então seria possível desenvolver um sistema em que as pessoas morando no bolo poderiam também trabalhar na área rural. Seria muito mais eficaz que o sistema de suprimento de supermercados de hoje, onde se está lidando com uma série de transportes intermediários, em centros de distribuição, e então, novamente em supermercados, e aí ainda temos de ir ao supermercado. No caso de bolos, cada bolo seria um supermercado, com departamentos de terras diversificadas, suficientemente grandes para desenvolver fazendas economicamente. Não se pode continuar com a agricultura de hoje porque ela só funciona com grandes suprimentos de petróleo, produtos químicos e outras coisas. São necessárias fazendas biologicamente mistas, onde se possa combinar plantios diversos na mesma área, de modo a se fertilizarem entre si. Não estes imensos campos monótonos; isso não funcionaria mais. Mas uma agricultura mista, assim, exige muito mais mão-de-obra que hoje ' o que é bastante bom ' talvez três vezes mais. Isso, porém, não é muito, porque na Suíça a agricultura utiliza mais ou menos 3% da força de trabalho, portanto então seriam cerca de 10%. Porém, nesse meio tempo, todos os bancos teriam sucumbido e haveria mais gente suficiente para entrar no sistema.
O que eu descrevi agora é o sistema; entretanto, eu o faria de modo diferente. Talvez seja bem mais divertido quando bolos diferentes em áreas diversas de terras troquem suas coisas entre si, para que não se tenha que comer sempre a mesma coisa. Certas coisas podem ser intercambiadas globalmente. Temperos, por exemplo, são bem leves e eficazes, ou óleo de oliva, nozes, tâmaras e todo tipo de queijo e lingüiça, vinho, é claro; tratam-se de produtos altamente concentrados, sem restrições ecológicas em termos de transporte.

A forma mais simples de intercâmbio é o presente. É também a mais perigosa, especialmente para quem o recebe. Esta troca é possível quando alguém é relativamente independente. O bolo possui uma soberania básica; na Suíça temos um ditado ' ser suficientemente independente para ser generoso. Em termos marxistas, não é necessário investigar se você presenteou valores demais. Há uma ampla variedade de presentes. E, uma vez que se assume que o bolo existe em todo lugar, doar significa um tipo de honra para esses bolos, o que significa que, em retorno, eles também podem receber algo. Essa seria uma importante forma de intercâmbio, que não fica especificamente presa a qualquer commodity. Pode-se dar de tudo; tempo, poemas ou o que se queira.
Provavelmente, o aspecto mais importante desse sistema que estou descrevendo seja o arranjo de troca permanente. Chamo isso de "feno." Significa, por exemplo, que existem contratos de troca com bolos vizinhos. Se se quiser concretizar isso em termos suíços, então: você conserta nossa janela porque você tem uma oficina de consertos de janelas, nós consertaremos suas instalações sanitárias, de modo que cada bolo tem todo tipo de oficina de reparos.
Eu tenderia a ver uma terceira forma de intercâmbio num nível mais alto; eu me refiro àqueles sacolões de bairro ou centros de atacados da cidade. É possível descrever isso como socialismo ou comunismo. Os bolos de uma cidade, de um modo geral, carecem de mercadorias que não podem eles mesmo produzir, ou que necessitem apenas ocasionalmente. Eles possuem, por exemplo, um depósito central de atacado para maquinaria e quando necessitam de determinada máquina, vão lá e apanham. Seriam, portanto, serviços comunitários, como temos hoje com a água, a eletricidade, e certas commodities, como sal e açúcar, que exigem grandes volumes e têm de ser produzidos de alguma maneira centralizada. Seria possível distribuí-los de graça, porque todo mundo necessita da mesma quantidade, de qualquer maneira. Isso já seria possível hoje. Primeiro, eu descreveria algo assim como socialismo, ou até comunismo: todo mundo pega o que precisa e produz o que pode. Então, naturalmente, haveria a variável de troca por dinheiro; isso certamente estaria presente. Acho que o dinheiro é importante para mercadorias que não sejam utilizadas assim tão freqüentemente, que são produzidas especialmente ou sob medida. Isso funcionaria mais eficientemente em nível de vizinhanças, bairros, vilarejos ou cidades, de modo que é possível ter mercados ou bazares onde as pessoas podem trazer coisas como jóias, roupas, CD's, arte, substâncias especiais, remédios, cosméticos e todo tipo de coisas interessantes. As pessoas poderiam ser membros de bolos ou vendedores-viajantes, e aí entra o dinheiro. O tipo de moeda realmente não interessa, pode ser moeda local ou um dólar globalizado ou cartão de crédito, como queiram. Realmente não importa; dinheiro não é perigoso, como objeto. Eu diria que dinheiro é perigoso somente quando se permite que alguém desenvolva sua própria dinâmica num setor de necessidade, tal como fornecimento de alimentos, por exemplo.

Se tivéssemos agora atingido essas condições ecológicas, por exemplo, 20% do consumo de energia, então ainda seria possível ter alguns carros no ambiente. Num bolo, talvez ainda existiriam 20% de carros, que as pessoas poderiam alugar. Isso seria suficiente, já que se tem de dirigir apenas uma vez ou outra. Mas será dificilmente necessário dirigir, porque não haveria razão para as pessoas irem a qualquer lugar. Significa que o número de automóveis seria reduzido umas dez vezes, a indústria automotiva quase que acabaria, como também todos os bancos que a financiam. Ao mesmo tempo, a indústria petrolífera entraria em colapso e deixaria de existir. Por outro lado, a indústria de eletrodomésticos se encolheria proporcionalmente, porque, por exemplo, seria possível lavar toda a roupa em uma única lavadora do bolo, o que seria 8 vezes mais eficiente que uma máquina de lavar normal. Todo o entretenimento eletrônico que ainda existisse por aí poderia continuar, só que não seriam mais necessários tantas máquinas. Na realidade, a indústria high-tech se reduziria só em termos de consumo. Seria preciso 10 vezes menos de tudo. E então temos apenas o aspecto de onde e como produzir o restante com maior eficiência. A resposta aqui é completamente clara: subcontinentalizar. Por exemplo, caminhões seriam montados num local, digamos, no sul de Varsóvia, para todos os bolos ou cidades entre os Montes Urais e o Atlântico. E seriam produzidos apenas módulos. Módulos médios, grandes e pequenos, um motor e então em bolos ou cidades haveria montagem dos módulos para fazer o que fosse necessário. Isto já ocorre hoje no terceiro mundo. Todos os ônibus de transporte público são feitos lá. O chassis é construído lá e tudo o que se fornece é o motor e o câmbio. Já é uma tecnologia eficiente. Como funcionaria? Faria isso simplesmente com dinheiro: as pessoas pagam. Naturalmente, você poderia agora perguntar: como é possível obter dinheiro? Existe, é claro, uma única opção: ou você paga pelo produto ou tem uma quota. E preciso alguma quantidade de caminhões e então os trabalhadores, que produzem caminhões, são pagos por nós indiretamente, por meio de dinheiro ' mas, na verdade, não se precisa de muito. Pode-se obter dinheiro, caso seja necessário, se a pessoa optar por vender parte das commodities, parte da força de trabalho ou dos produtos agrícolas, em troca de dinheiro. Isto cria, automaticamente, um mercado subcontinental, se for tentado.

Quando as pessoas moram perto, existe um controle social intrínseco que não exige nenhuma imposição organizada. Seria apenas tipo: que é que você está querendo de novo? A vigilância é simplesmente muito maior. Isso é lindo, no sentido em que previne um bocado de comportamento social danoso, e é possível reduzir a força policial. Eu diria que a polícia poderia ser reduzida a um décimo de seu tamanho atual. O problema, então, seria inverso: se eu me apresento como "ibu," como uma pessoa, quanto desse controle social consigo suportar ? Isso poderia ser também um problema. O negócio é a proporção da mesclagem. Quando não há controle social, então surgem as condições do gueto; caos e anarquia -- no pior sentido ' e é necessário um policial em cada andar. Isso não é bom. Mas é preciso, da mesma maneira, ter algum espaço para que seja possível às pessoas se defenderem desse controle interno. Um aspecto de espaço é o tamanho. Se houver 500 pessoas, então é fundamental que o anonimato seja assegurado. Aí é possível fazer as coisas, os bolos podem ter várias entradas e saídas, a fim de que ninguém veja você. Em bolos menores, tal controle se converteria num pesadelo, um bolo maior seria melhor. Os bolos podem fazer contratos de bolo global. Eu posso me mudar a qualquer hora, depois de aviso, e um bolo sim, outro não, tem capacidade livre para pessoas que simplesmente queiram se tornar hóspedes, mas talvez para ficar. Posso me mudar de qualquer lugar para qualquer lugar. Isso evitaria que as pessoas ficassem muito adstritas ao controle social, porque então teriam receio de que eu me mudasse.

Quando se começa a falar em bolos, o perigo é vê-los como construções isolacionistas, um pouco como as grandes comunas dos anos 70. Mas eu gostaria de me afastar disso completamente. Para mim, pode-se dizer que os bolos são organizações eficientes de civis. Você entra com um contrato e sai da mesma forma. Talvez você traga sua riqueza consigo, mas também a leva quando sai. Não são comunas. Também, dentro, talvez haja famílias ou grupos em coletividade e pessoas sozinhas; todos têm sua própria esfera privativa. Poderiam também existir bolos onde as pessoas querem dormir em dormitórios imensos, não se poderia evitar isso também está OK. Mas também poderiam existir instituições monásticas. O que se precisa, naturalmente, é um contrato planetário de bolo e, para mim, 10% do espaço de moradia e alimentação, em cada bolo, seriam reservados a hóspedes para contrabalançar essa tendência isolacionista. Cada bolo tem que se abrir, de certo modo.


Para baixar gratuitamente, clique no link do Bolo no site oficial de Sonia Hirsch



E para ler direto aqui, veja o slideshare abaixo:








O que o Bolo inspirou pelo mundo afora:
Fábricas sem patrão
A Revolução dos cocos
Quando a Islândia reinventou a democracia




Mais informação:
Turista Espacial
ZAT, Zona Autônoma Temporária
Como funciona uma corporação e como o que você consome, implica nisso
A rede capitalista de 147 empresas que controla 60% das vendas no mundo

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Manual do Arquiteto Descalço




O livro é a bíblia da Permacultura, com prefácio do arquiteto Jaime Lerner, e pode ser encontrado facilmente no 4Shared ou no slide share que deixo abaixo.

Sugiro que as pessoas baixem e leiam, mesmo não trabalhando na área. O "manual" oferece inúmeras dicas de construção sustentável e mostra como um novo mundo, além de possível, é extremamente viável.

Todas as ecovilas que visitei, aplicavam na prática as muitas dicas do livro, tornando a vida de seus moradores prazerosa e sustentável.

Para quem quer se aprofundar na questão, o Instituto de Bioarquitetura Tibá oferece inúmeros cursos na área.














Manual do Arquiteto Descalço
Com linguagem simples e desenhos explicativos, Johan van Lengen ensina a planejar e construir habitações, bairros, banheiro seco, fogão e muito mais – e mostra que técnicas populares antigas chegam ao século XXI apontando caminhos para a sustentabilidade
Giuliana Capello, Planeta Sustentável

Em tempos nem tão remotos assim, os povos das zonas mais áridas do planeta sabiam aproveitar materiais locais para levantar casas que se adequavam ao clima, da mesma forma que os habitantes das florestas e das regiões temperadas conheciam técnicas para evitar a entrada de umidade e frio nas moradias. Construir era um saber cultivado entre as famílias e transmitido de geração em geração.

Inúmeras razões alteraram esse cenário em poucas décadas. Para citar algumas: o êxodo rural e a perda da identidade cultural lançaram ao limbo muitas técnicas construtivas tradicionais; o setor da construção civil se estruturou levantando bandeira contra a autoconstrução e tirando proveito da influência no PIB de seus países para ditar as regras do jogo; a falta de planejamento urbano e o intenso adensamento populacional só tornaram o problema ainda mais complexo.

O resultado? Habitações precárias se espalharam por todo o globo, desenhando no skyline a face de um dos maiores desafios atuais da humanidade: combater o gigantesco déficit habitacional. E mais do que isso: a tarefa hercúlea de substituir milhões e milhões de moradias insalubres por outras mais dignas e adequadas às urgências do planeta.

O arquiteto e urbanista Johan van Lengen conhece bem essa história. Holandês, ele passou a maior parte de sua vida na América Latina - até se estabelecer no Brasil e fundar, em 1987, o TIBÁ – Instituto de Tecnologia Intuitiva e Bio-Arquitetura (www.tibarose.com), na serra fluminense. Só no México foram oito anos de trabalho, a convite da ONU, coordenando a capacitação de moradores e agentes públicos em construções sociais e planejamento urbano. Nos países por onde passou, pesquisou a arquitetura das habitações indígenas e diz ter se inspirado, principalmente, na gente do campo e das zonas precárias das grandes cidades que, como ele escreve, sustentam a confiança na possibilidade de melhorar suas condições de vida, por mais que isso pareça impossível.

Neste livro, que é resultado da revisão e ampliação de outras obras do autor (como a homônima publicada pela Secretaria de Assentamentos Humanos e Obras Públicas do México, em 1981), van Lengen reúne uma série de técnicas e materiais usados em construções tradicionais. Mas, ao contrário do que pode parecer, a intenção não é ser saudosista ou fazer apologia à arquitetura vernacular. Nas palavras dele: “Não se trata de induzir as pessoas a construírem suas próprias casas na maneira tradicional. O mundo mudou muito, há escassez de materiais tradicionais de construção e de mão-de-obra com este conhecimento. Diante disto, tal tipo de informação seria uma frustração para o leitor. Trata-se, antes, de responder aos desafios atuais da questão habitacional e apresentar alternativas, aplicando no processo construtivo uma combinação de técnicas tradicionais e modernas”.
Desse convite para um encontro do “velho” com o “novo” vem o nome Manual do Arquiteto Descalço. Na antiguidade, os arquitetos costumavam amassar a terra com os pés para preparar tijolos. Hoje, pouquíssimos profissionais encarariam uma tarefa dessas – talvez uma alusão, por outro lado, de que sem levantar da cadeira será difícil dar um rumo mais sustentável à arquitetura.

Mas não é preciso ser arquiteto ou engenheiro para se ver envolvido pela obra. Ao longo das cerca de 700 páginas, ricamente ilustradas, o leitor mais leigo no tema tem a chance de entender um pouco sobre os critérios que permeiam o trabalho de van Lengen e aparecem distribuídos nos dez capítulos do livro: um bom projeto, integrado ao entorno e adequado ao clima; materiais naturais ou reaproveitados e, sempre que possível, disponíveis localmente; conforto térmico, eficiência energética, uso racional da água e saneamento ecológico.

Se você não conhece nada sobre as técnicas, pode até correr o risco de cair no preconceito do que diz o senso comum, sempre desconfiado das soluções que parecem “atrasadas”, “alternativas” ou mesmo de qualidade duvidosa. Em momento algum o autor se preocupa em mostrar a validade do que apresenta na obra. Mas a simplicidade encantadora – e bem própria dos grandes mestres - com que ele trata cada possibilidade de construção dá credibilidade o bastante para fazer do livro uma espécie de bíblia da bioconstrução.

Não há qualquer purismo em seus ensinamentos. Tanto que, misturados à terra, bambu, madeira, cactos e sisal, ele inclui o uso de materiais contemporâneos e sem nenhuma fama de serem “verdes”, como cimento e gesso. Também não há receitas prontas ou detalhes minuciosos de cada técnica. E é exatamente este o ponto que torna a obra mais intrigante. Para transpor os ensinamentos do papel para o canteiro, é preciso dispor de uma boa dose de intuição e confiança.

Quem estiver aberto para a experiência vai gostar - e muito – da sacudida que o livro costuma provocar nos nossos mais rígidos conceitos. Ao ensinar sobre como montar portas e janelas, construir um telhado verde, um fogão à lenha ou um aquecedor solar e até mesmo a pisar o barro para fazer tijolos, van Lengen compartilha com o leitor a responsabilidade da mudança que precisa ocorrer no mundo, para que todos tenham acesso a uma moradia decente e planetariamente amigável. E vai além: olha para o futuro com uma esperança que poucos ainda conseguem manter com tanta convicção.

Em tempos nem tão remotos assim, os povos das zonas mais áridas do planeta sabiam aproveitar materiais locais para levantar casas que se adequavam ao clima, da mesma forma que os habitantes das florestas e das regiões temperadas conheciam técnicas para evitar a entrada de umidade e frio nas moradias. Construir era um saber cultivado entre as famílias e transmitido de geração em geração.

Inúmeras razões alteraram esse cenário em poucas décadas. Para citar algumas: o êxodo rural e a perda da identidade cultural lançaram ao limbo muitas técnicas construtivas tradicionais; o setor da construção civil se estruturou levantando bandeira contra a autoconstrução e tirando proveito da influência no PIB de seus países para ditar as regras do jogo; a falta de planejamento urbano e o intenso adensamento populacional só tornaram o problema ainda mais complexo.

O resultado? Habitações precárias se espalharam por todo o globo, desenhando no skyline a face de um dos maiores desafios atuais da humanidade: combater o gigantesco déficit habitacional. E mais do que isso: a tarefa hercúlea de substituir milhões e milhões de moradias insalubres por outras mais dignas e adequadas às urgências do planeta.

O arquiteto e urbanista Johan van Lengen conhece bem essa história. Holandês, ele passou a maior parte de sua vida na América Latina - até se estabelecer no Brasil e fundar, em 1987, o TIBÁ – Instituto de Tecnologia Intuitiva e Bio-Arquitetura (www.tibarose.com), na serra fluminense. Só no México foram oito anos de trabalho, a convite da ONU, coordenando a capacitação de moradores e agentes públicos em construções sociais e planejamento urbano. Nos países por onde passou, pesquisou a arquitetura das habitações indígenas e diz ter se inspirado, principalmente, na gente do campo e das zonas precárias das grandes cidades que, como ele escreve, sustentam a confiança na possibilidade de melhorar suas condições de vida, por mais que isso pareça impossível.

Neste livro, que é resultado da revisão e ampliação de outras obras do autor (como a homônima publicada pela Secretaria de Assentamentos Humanos e Obras Públicas do México, em 1981), van Lengen reúne uma série de técnicas e materiais usados em construções tradicionais. Mas, ao contrário do que pode parecer, a intenção não é ser saudosista ou fazer apologia à arquitetura vernacular. Nas palavras dele: “Não se trata de induzir as pessoas a construírem suas próprias casas na maneira tradicional. O mundo mudou muito, há escassez de materiais tradicionais de construção e de mão-de-obra com este conhecimento. Diante disto, tal tipo de informação seria uma frustração para o leitor. Trata-se, antes, de responder aos desafios atuais da questão habitacional e apresentar alternativas, aplicando no processo construtivo uma combinação de técnicas tradicionais e modernas”.
Desse convite para um encontro do “velho” com o “novo” vem o nome Manual do Arquiteto Descalço. Na antiguidade, os arquitetos costumavam amassar a terra com os pés para preparar tijolos. Hoje, pouquíssimos profissionais encarariam uma tarefa dessas – talvez uma alusão, por outro lado, de que sem levantar da cadeira será difícil dar um rumo mais sustentável à arquitetura.

Mas não é preciso ser arquiteto ou engenheiro para se ver envolvido pela obra. Ao longo das cerca de 700 páginas, ricamente ilustradas, o leitor mais leigo no tema tem a chance de entender um pouco sobre os critérios que permeiam o trabalho de van Lengen e aparecem distribuídos nos dez capítulos do livro: um bom projeto, integrado ao entorno e adequado ao clima; materiais naturais ou reaproveitados e, sempre que possível, disponíveis localmente; conforto térmico, eficiência energética, uso racional da água e saneamento ecológico.

Se você não conhece nada sobre as técnicas, pode até correr o risco de cair no preconceito do que diz o senso comum, sempre desconfiado das soluções que parecem “atrasadas”, “alternativas” ou mesmo de qualidade duvidosa. Em momento algum o autor se preocupa em mostrar a validade do que apresenta na obra. Mas a simplicidade encantadora – e bem própria dos grandes mestres - com que ele trata cada possibilidade de construção dá credibilidade o bastante para fazer do livro uma espécie de bíblia da bioconstrução.

Não há qualquer purismo em seus ensinamentos. Tanto que, misturados à terra, bambu, madeira, cactos e sisal, ele inclui o uso de materiais contemporâneos e sem nenhuma fama de serem “verdes”, como cimento e gesso. Também não há receitas prontas ou detalhes minuciosos de cada técnica. E é exatamente este o ponto que torna a obra mais intrigante. Para transpor os ensinamentos do papel para o canteiro, é preciso dispor de uma boa dose de intuição e confiança.

Quem estiver aberto para a experiência vai gostar - e muito – da sacudida que o livro costuma provocar nos nossos mais rígidos conceitos. Ao ensinar sobre como montar portas e janelas, construir um telhado verde, um fogão à lenha ou um aquecedor solar e até mesmo a pisar o barro para fazer tijolos, van Lengen compartilha com o leitor a responsabilidade da mudança que precisa ocorrer no mundo, para que todos tenham acesso a uma moradia decente e planetariamente amigável. E vai além: olha para o futuro com uma esperança que poucos ainda conseguem manter com tanta convicção.



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Dois filmes sobre o McDonald´s: "Super Size Me" e "Uma jornada criminosa"



A menção ao Food Inc. me lembrou outro filme, Super Size Me, documentário vencedor em Sundance, que retrata o dia a dia de um cineasta independente comendo diariamente no McDonald´s.
O documentário é uma crítica feroz às cadeias de fast food em geral, não apenas ao McDonald´s, e ao estilo de vida norte-americano, conseguindo posteriormente com que as redes de comida pronta, passassem a oferecer saladas, frutas, água de coco e sucos após a pressão popular para mudança de cardápios.

Vale a pena assistir, até por denunciar a falta de opções alimentares e de práticas esportivas oferecidas à maioria das pessoas, a começar pelas crianças em fase escolar, além é claro de toda a publicidade em torno das grandes cadeias.

As melhores cenas do filme: crianças reconhecendo o palhaço Ronald McDonald mas não reconhecendo a imagem tradicional de Jesus Cristo, adolescentes em cantinas escolares se servindo de máquinas de salgadinhos e refrigerantes, a nutricionista apontando que em 1980 só existia um tamanho de saco de batatas fritas (hoje considerado infantil) e a adaptação que a indústria automobilística teve que fazer em seus automóveis para comportar copos de até 2lts de refrigerante.

Em tempo, toda bebida industrializada é crime ambiental de hidropirataria, caso ainda não tenha assistido ao Flow, assista.

Atente também que o primeiro sintoma que o cineasta percebe é a intoxicação por açúcar e que, pela própria tabela nutricional do restaurante visitado, até a sobremesa de frozen iogurte com granola é tão rica em açúcar quanto um sorvete com cobertura.


Abaixo, a descrição do filme, no Wikipedia:

Super Size Me é um documentário americano de 2004, escrito, produzido, dirigido e protagonizado por Morgan Spurlock, um cineasta independente americano.

No filme, Spurlock segue uma dieta de 30 dias (fevereiro de 2003) durante os quais sobrevive em sua totalidade com a alimentação e a compra de artigos exclusivamente do McDonald's. O filme documenta os efeitos que tem este estilo de vida na saúde física e psicológica, e explora a influência das indústrias da comida rápida.

Durante a gravação, Spurlock comia nos restaurantes McDonald's três vezes ao dia, chegando a consumir em média 5000 kcal (o equivalente de 9,26 Big Macs) por dia durante o experimento.

Antes do início deste experimento, Spurlock, comia uma dieta variada. Era saudavel e magro, e media 188 cm de altura com um peso de 84,1 kg. Depois de trinta dias, obteve um ganho de 11,1 kg, uns 13% de aumento da massa corporal deixando seu índice de massa corporal em 23,2 (dentro da faixa "saudável" 19-25) a 27 ("sobrepeso"). Também experimentou mudanças de humor, disfunção sexual, e dano ao fígado. Spurlock precisou quatorze meses para perder o peso que havia ganhado.

O fator que motivou Spurlock para fazer a investigação foi a crescente propagação da obesidade em todo os Estados Unidos, que o diretor do serviço público de saúde americano tinha declarado como "epidemia", e a correspondente demanda judicial contra o McDonald's em nome de duas meninas com sobrepeso, que alegaram que se converteram em obesas como resultado de comer alimentos do McDonald's. Spurlock disse que apesar do processo contra McDonald's ter falhado, grande parte da mesma crítica contra as companias de tabaco se aplica as franquias de comida rápida. Embora se podia argumentar que a comida rápida, ainda seja psicologicamente viciante,[1][2] não é tão viciante como nicotina.

O filme foca o Mc Donald's como um dos representantes da indústria alimentar americana, que criou tamanhos exagerados de porções e que, sempre que possível, induz ao consumo de mais e maiores porções, fazendo com que a população consuma muito além do necessário para uma alimentação saudável. No Brasil, têm-se como exemplo as pipocas da rede americana Cinemark, com porções muito maiores que as habituais no país.

O documentário foi nomeado para um Oscar na categoria de melhor documentário longa.
[editar] Experimentos

A medida que o filme começa, Spurlock está fisicamente acima da media, como é demostrado por três médicos (um cardiologista, um gastroenterologista, e um clínico geral), assim como uma nutricionista e um preparador físico. Ele é orientado pelos cinco para realizar a avaliação da sua saúde durante o mês de duração. Todos os profissionais da saúde predizem o "Mc Mess" terá efeitos indesejaveis sobre seu corpo, porém ninguém esperava nada demasiado drástico, citando que o corpo humano como "extremamente adaptável".

Spurlock começa o mês com um café da manhã perto de sua casa em Manhattan, onde há em média quatro McDonald's (e 66.950 habitantes) por milha quadrada (1,6 km ²). Também opta por viajar em taxis com maior frequência, já que pretende manter as distancias que caminha em linha com os 5000 passos (aproximadamente duas milhas) que por dia caminhava a média dos americanos. Spurlock têm várias regras que regem seus hábitos alimentares:

* Deve plenamente comer em McDonald's três comidas por dia
* Deverá escolher cada item no menu do McDonald's ao menos uma vez durante o transcurso dos 30 dias (fez em nove dias)
* Deve ingerir só os itens do menu. Isto inclui a água engarrafada.
* Deve escolher o tamanho "Super Size" de sua comida sempre que lhe for oferecido.
* Deve aceitar todas as promoções oferecidas para que ele compre mais comida que a intencionada inicialmente.
* Terá de caminhar a média que se caminha nos Estados Unidos, sobre a cifra de 5000 passos ao dia,[3] porém isto não era rígido, já que ele caminhou relativamente mais, em comparação do que se caminha em Nova York que em Houston.

No dia 2 Spurlock come pela primeira vez o tamanho Super Size, que leva cerca de uma hora para comer. A experiência foi o aumento de seu estomago durante o processo, que culmina com Spurlock vomitando no caminho de volta para casa.

Depois de cinco dias Spurlock havia ganhado quase 10 libras (4,5 kg). Não passa muito tempo antes de que se encontre a si mesmo com uma sensação de depressão, e ele considera que seus episódios de depressão, letargia e dores de cabeça são causadas pela comida do McDonald's. Um médico descreveu-o como "viciado".

A noiva de Spurlock, Alexandra Jamieson, é um testemunha para o fato de Spurlock ter perdido muita da sua energia e desempenho sexual durante a sua experiência. Não esta claro se Spurlock seria capaz de completar o mês completo devido ao elevados teores de gordura e carboidrato de sua dieta; seus amigos e família começaram a preocupar-se.

Próximo do vigésimo dia, Spurlock havia sentido estranhas palpitações no coração. Consulta seu médico particular, o doutor Daryl Isaacs lhe aconselha parar o que está fazendo de imediato para evitar qualquer tipo de graves problemas de saúde. Apesar desta advertência, Spurlock decide continuar com o teste. Mais tarde declarou em uma entrevista que, apesar das preocupações e objeções da maior parte das pessoas próximas a ele, era seu irmão mais velho que o motivou a continuar com sua observação, "Morgan, a gente comeu esta merda toda sempre. Acha mesmo que vai te matar se você comer os outros 9 dias?"

Spurlock chega ao trigésimo dia e atinge o seu objectivo. Em trinta dias, Spurlock comeu o tamanho "Super Size" em sua refeição em nove ocasiões ao longo do caminho (dos quais cinco foram no Texas). Os três médicos ficaram surpresos com o grau de deterioração da saúde de Spurlock. Um deles afirmou que era irreversivel o dano causado ao seu fígado, que pode sofrer, além disso, um ataque ao coração, mesmo perdendo todo o peso ganho durante o experimento. Ele disse que nesse periodo comeu mais refeições no McDonald's do que um nutricionista recomenda comer em 8 anos.


Dos 10 piores "alimentos" para a saúde, os lanches servidos em redes de fast food constam em quase todos os itens: sorvete industrializado, salgadinho de milho industrializado, pizza pronta, batata frita, batata chips, salsichas, bacon, donuts, refrigerante convencional e dietético.







Outro documentários, dessa vez brasileiro, sobre a maior rede de fast food do mundo: Uma jornada criminosa no McDonald´s: a jornada móvel e variável de trabalho onde se paga menos de R$50,00 mensais a menores e ainda aumenta o rombo da nossa previdência


Uma Jornada Criminosa

A sociedade brasileira precisa tomar conhecimento do escândalo que é a cruel exploração do trabalho de nossos jovens por grupos empresariais que visam assegurar lucros a qualquer custo. 

Com esta vídeo-reportagem a opinião pública e as autoridades serão levadas à indignação diante desta grave denúncia, ao mesmo tempo que serão estimuladas a refletir as razões pelas quais ainda convivemos com um quadro repugnante passados dez anos de pleno século vinte e um. 

Teria razão a ministra ao questionar a ética na magistratura? 

Como se permite criar representações irregulares de trabalhadores com o único intuito de justificar a exploração de jovens em seu primeiro emprego? 

Cuidado! Cedo ou tarde, você ou alguém próximo a você também será atingido. 

A imagem acima foi retirada do site do Sinthoresp, onde se pode acompanhar em tempo real todas as instâncias do processo contra o McDonald´s - Como o McDonald´s aprisiona mais de 40 mil jovens trabalhadores, em um esquema de trabalho ilegal e exploratório. 


McDonald's é convidado a explicar denúncia de trabalho escravo

O McDonald's foi convidado pela Câmara dos Deputados a dar explicações, em audiência pública, sobre a sua política salarial e a jornada de trabalho dos seus funcionários.

O requerimento para a apresentação dos representantes da lanchonete na Câmara foi aprovado na quarta-feira (19), pela CTASP (Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público). A audiência ainda não tem data marcada. 

A assessoria do deputado Sabino Castelo Branco (PTB-AM), autor da proposição e membro da comissão, informou que o requerimento foi motivado pelo vídeo Uma jornada criminosa, que circula na internet e em redes sociais - em que o McDonald's é acusado de ter política salarial "análoga à escravidão". 

De acordo com o vídeo, a lanchonete pagaria aos seus funcionários R$ 2,52 por hora trabalhada, totalizando salário de cerca de R$ 380 por mês - valor inferior a um salário mínimo [R$ 545], por jornada de 44 horas de trabalho, em que horas de intervalo seriam descontadas à revelia dos funcionários.

O cálculo feito pelo McDonald's é chamado de "jornada móvel e variável" e foi denunciado pelo Sinthoresp (Sindicato dos Trabalhadores no Comércio e Serviços em Geral de Hospedagem, Gastronomia, Alimentação Preparada e Bebida a Varejo de São Paulo e Região) ao TST (Tribunal Superior do Trabalho). A ministra Dora Maria da Costa, relatora do caso, condenou as práticas da lanchonete.

O desembargador Henrique Nelson Calandra, presidente da AMB (Associação dos Magistrados Brasileiros), afirma que "é uma vergonha ter no Brasil focos de trabalho escravo", pois há violação de direitos e garantias básicas dos trabalhadores, segundo registro feito no vídeo.

OUTRO LADO
O McDonald's informou que "realiza o pagamento de todas as horas em que os funcionários estão no restaurante"; que paga o piso salarial determinado por sindicatos, quando cumprida a jornada de 44 horas semanais; e que a jornada de trabalho flexível visa beneficiar funcionários que conciliam o trabalho com horários de estudo.

A empresa ainda declarou que irá apurar casos que fujam a sua política trabalhista --que devem ser considerados exceções.

Por meio de assessoria, o McDonald's afirmou que tem "compromisso em cumprir rigorosamente a legislação trabalhista e segue o que é previsto e reconhecido pela lei". 



Mais uma resposta para o rombo da Previdência: o trabalhador recebe menos, a empresa colabora menos e assim, a Previdência recebe menos, mas é obrigada a cobrir a aposentadoria de todos nós.

Quando acreditamos que a Reforma da Previdência deve ser feita sacrificando aposentadorias e pensões, não sabemos que as indústrias, que contam com isenção fiscal por serem cogeradoras de empregos, são na verdade as maiores responsáveis pelo rombo do INSS, já que contribuem financeiramente com uma parte muito menor do que seus efeitos colaterais: as aposentadorias por invalidez e lesões degenerativas que nós, os contribuintes e respectivamente futuros aposentados e pensionistas, temos que arcar.

Nós pagamos 2 vezes por esse flagelo social, no curto prazo, quando arcamos com o prejuízo direto e a longo prazo, quando temos nossos benefícios reduzidos para manter esse sistema destruidor e que se retroalimenta com nossos 5 meses anuais de salário pago em tributos.







Mais informação:
Por uma infância sustentável
"Carne & Osso" e "Moendo Gente": como a carne chega na bandeja de isopor do mercado
"Nação Fast Food" - uma rede de corrupção e "Food Inc.", você nunca mais verá seu jantar da mesma forma


 
Para comer sem culpa:
Pizzas caseiras
Sorvetes caseiros
Pão de queijo caseiro
Kibe, falafel e acarajé
Bolos de chocolate 100% integrais
Ketchup, mostarda e maionese caseiros (+ uma receita de salada de maionese sem maionese)